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sábado, 26 de dezembro de 2015
# 275
é preciso termos constantemente flores à sua volta (...) Para meterem medo à outra.
Boris Vian - A Espuma dos Dias
# 274
- O que tem ela? (...)
- Um nenúfar! - disse Colin. - Onde é que o teria apanhado?
- Tem um nenúfar? - perguntou Nicolas, incrédulo.
- No pulmão direito - disse Colin.
Boris Vian - A Espuma dos Dias
# 273
Havia qualquer coisa de etéreo nas variações de Johnny Hodges, qualquer coisa de inexplicável e autenticamente sensual. Sensualidade em estado puro, liberta do corpo. Os cantos do quarto modificavam-se e arredondavam-se sob o efeito da música. Colin e Chloé repousavam agora no centro de uma esfera.
# 272
No sítio em que os rios se lançam no mar forma-se uma barra difícil de transpor e há grandes remoinhos de espuma onde bailam destroços.
Boris Vian - A Espuma dos Dias
# 271
[Colin]
O coração ocupava todo o espaço que havia no seu peito, e só naquela altura ele se apercebia do facto.
Boris Vian - A Espuma dos Dias
# 270
Chloé sentia no corpo uma força opaca, no tórax uma presença inimiga, não sabia como lutar e de vez em quando tossia para expulsar o adversário que se agarrava à sua carne mais profunda. Tinha a impressão, se respirasse fundo, de que iria entregar-se viva à raiva obscurecida do inimigo, à sua insidiosa malignidade.
Boris Vian - A Espuma dos Dias
# 269
Colin corria, corria, e o ângulo agudo do horizonte comprimido entre as casas vinha ter com ele a toda a velocidade. Debaixo dos seus pés fazia noite. Uma noite de algodão negro, amorfa e inorgânica; e o céu estava sem cor, era um tecto, era mais outro ângulo agudo
(...)
não sabia o que tinha acontecido e corria, sentia medo, porque não basta estarmos sempre juntos, também é preciso sentir medo
Boris Vian - A Espuma dos Dias
sexta-feira, 25 de dezembro de 2015
# 268
A rua ia dar a Chloé.
- Chloé, os teus lábios são doces. Tens uma pele cor de fruto. Os teus olhos vêem as coisas como devem ser vistas, e o teu corpo aquece-me...
(...)
Vão ser precisos meses e meses para eu me fartar dos beijos que te vou dar. Vão ser precisos anos de meses para esgotar os beijos que eu quero dar-te nas mãos, nos cabelos, nos olhos, no pescoço...
(...)
- Chloé, eu queria sentir os teus seios no meu peito, as minhas mãos cruzadas sobre o teu corpo, os teus braços à volta do meu pescoço, a tua cabeça perfumada na curva do meu ombro, a tua pele palpitante, o cheiro que vem de ti...
Boris Vian - A Espuma dos Dias
# 267
O que me interessa não é a felicidade de todos os homens, mas de cada um em particular.
Boris Vian - A Espuma dos Dias
# 266
De pé num canto da praça, Colin esperava por Chloé. A praça era redonda, tinha uma igreja, pombos, jardim, bancos, e em frente, no macadame, carros e autocarros. O sol também estava à espera de Chloé mas podia entreter-se a fazer sombras, a germinar sementes de feijão bravo em interstícios adequados, a empurrar postigos e a envergonhar um candeeiro aceso
Boris Vian - A Espuma dos Dias
# 265
Colin agarrou numa faca de prata e começou a traçar uma espiral na brancura polida do bolo. Parou subitamente e olhou para a obra, surpreendido.
- Vou tentar fazer uma coisa - disse.
Tirou do centro de mesa uma folha do azevinho e agarrou no bolo só com uma mão, fazendo-o girar rapidamente na ponta de um dedo. Com a outra, colocou um dos picos da folha de azevinho sobre a espiral.
- Ouve! - pediu.
Chick ouviu. Era Chloe no arranjo de Duke Ellington.
Chick olhou para Colin. Viu-o muito pálido.
Tirou-lhe a faca das mãos e espetou-a no bolo com um gesto firme. Fendeu-o em dois, e dentro havia um novo artigo de Partre para Chick, e um encontro com Chloé para Colin.
Boris Vian - A Espuma dos Dias
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# 264
Chuchou o dedo e levantou-o acima da cabeça. Baixou-o logo a seguir. Ardia como se estivesse num forno.
- O amor anda no ar - concluiu. - Está muito calor.
Boris Vian - A Espuma dos Dias
# 263
O coração de Colin inchou desmesuradamente, fez-se leve, levantou-o do chão e entrou com ele atrás.
Boris Vian - A Espuma dos Dias
# 262
havia algo no interior do seu tórax a tocar qualquer coisa parecida com música militar alemã, daquela em que se ouve o bombo e mais nada.
Boris Vian - A Espuma dos Dias
# 259
- É horrível! - disse Collin. - Sinto-me desesperado e ao mesmo tempo pavorosamente feliz. É bastante agradável termos a um tal ponto necessidade de qualquer coisa.
Boris Vian - A Espuma dos Dias
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