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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

# 98



Desde há dias que Riba se interessa por tudo o que gire à volta do tema dos hikikomori, que são autistas informáticos, jovens japoneses que, para evitar a pressão exterior, reagem com um completo retraimento social. De facto, a palavra japonesa hikikomori significa isolamento. Fecham-se num quarto da casa dos pais durante períodos de tempo prolongados, geralmente anos. Sentem-se tristes e quase não têm amigos, e a grande maioria dorme ou deita-se ao longo do dia, e vê televisão ou concentra-se no computador durante a noite. Riba interessa-se muito pelo tema, porque desde que deixou a editora e o álcool está a fechar-se em si mesmo e a converter-se, com efeito, num misantropo japonês, num hikikomori.
- Vou a Dublin a um funeral pela era da imprensa, pela era dourada de Gutenberg - diz ele a Celia.
Não sabe como foi, mas saiu-lhe de dentro. Ela olha-o como se quisesse atravessá-lo com os olhos. Silêncio. Inquietação. Rectifica, antes que ela se ponha a gritar.
- A ver se entendes. O funeral, sempre demorado, da literatura como arte em perigo. Embora, na realidade, a pergunta devesse ser: qual perigo?
Ele mesmo nota que se meteu numa embrulhada.
- Compreender-te-ia muito bem - prossegue -se me perguntasses que perigo. Porque, de facto, o que mais me interessa desse perigo é a conotação literária que tem.
Suspeita de que será agora que a sua mulher irá libertar a sua alma irada, e acontece o contrário (...) Celia olha-o, sorri-lhe, pergunta-lhe se, apesar dos dias que passaram, se recorda de ter pedido para alugar o filme de David Cronemberg que ainda não viu. Mostra-lhe o DVD de Spider, o filme acabado de alugar, e propõe-lhe carinhosamente que o vejam antes do jantar.
Com efeito, gosta de Cronemberg, um dos últimos realizadores que restam ao cinema. Mas parece-lhe tudo algo estranho, porque nunca lhe pediu para ver esse filme em casa. Dá uma olhadela ao DVD e lê que o filme trata "da incomunicabilidade de um solitário com um mundo inóspito".
- Sou eu? - pergunta.


Enrique Vila-Matas - Dublinesca

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

# 91



E que sabemos nós acerca de nós mesmos, interroga-se. Cada dia menos, porque ainda por cima Celia estuda, de há um tempo a esta parte, a possibilidade de se tornar budista (...) A ele, não lhe escapa que esse budismo no horizonte pode acabar por se tornar um grande problema, assim como o foi aquela escalada de álcool, que levou Celia a ponderar seriamente deixá-lo. (...)
Ficaram imóveis os dois agora, como se a ambos preocupassem as mesmas questões e isso os tivesse paralisado. A vida, o álcool, o budismo e, sobretudo, o desconhecimento que têm um do outro. 
Ficaram os dois presos por um frio inesperado, como se de repente se tivessem dado conta de que, no fundo, são desconhecidos um para o outro, e também para eles próprios (...) 
Crê que combinou sempre indiscutivelmente bem essa relativa ignorância sobre Celia com a sua completa ignorância sobre si mesmo. Como comentou uma vez em La Vanguardia: "Não me conheço. O meu catálogo editorial parece ter ocultado para todo o sempre a pessoa que está por detrás dos livros que fui publicando. A minha biografia é o meu catálogo. Mas falta o homem que ali estava antes de me decidir a ser editor. Falto eu, definitivamente."
- Em que estás a pensar? - pergunta-lhe Celia.
Incomoda-o ter sido interrompido e reage de maneira estranha e diz-lhe que estava a pensar na mesa da sala de jantar e nas cadeiras da entrada, que são perfeitamente reais, e na cesta de fruta que pertenceu à sua avó, mas que, apesar disso, também está a pensar que qualquer louco poderia entrar pela porta a todo o momento e opinar que as coisas não são assim tão claras.
A seguir, fica consternado, pois dá-se conta de que complicou tudo desnecessariamente. A sua mulher, agora, está indignada.
- Quais cadeiras? - diz Celia. - Qual entrada? E que louco? De certeza que me escondes algo. Volto a perguntar-te. Em que estás a pensar? Será que voltaste a beber?
- Estou a pensar no meu catálogo - diz Riba, e baixa a cabeça. Desde que deixou de beber, são raras as discussões matrimoniais com Celia. Isso foi um grandessíssimo avanço nas suas relações. Antes, eram combates duros, e nunca quis excluir a ideia de que fora ele, com o seu maldito álcool, sempre o culpado. Quando as discussões eram mais graves, Celia costumava meter umas quantas coisas numa mala, que logo a seguir punha no patamar. Depois, se lhe dava o sono, ia para a cama, mas deixava a mala lá fora. Deste modo, os vizinhos ficavam sempre a saber quando eles tinham discutido: a mala era o reflexo do que se passara na noite anterior.


Enrique Vila-Matas - Dublinesca

terça-feira, 27 de agosto de 2013

# 88



(...) Claudio Magris é de opinião que essa viagem circular de um pletórico Ulisses que regressa a casa - a viagem tradicional, clássica, edipiana e conservadora de Joyce - foi substituída em meados do século XX pela viagem rectilínea: uma espécie de peregrinação, de viagem que avança sempre em frente, para um ponto impossível do infinito, como uma recta que avança a titubear no nada.
Agora, ele poderia ver-se como um viajante rectilíneo, mas não quer colocar-se muitos problemas e decide que a sua viagem pela vida é tradicional, clássica, edipiana e conservadora. Pois não está a voltar para casa de táxi? Não vai a casa dos pais sempre que regressa de uma viagem e, ainda por cima, os visita sem falta todas as quartas-feiras? Não anda a preparar uma viagem a Dublin e ao próprio centro de Ulysses para, dias depois, bonacheiramente, regressar a Barcelona a sua casa e a casa dos seus pais e contar-lhes a viagem? É quase inegável que leva uma vida na mais pura ortodoxia da viagem circular.


Enrique Vila- Matas - Dublinesca

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

# 80



- E agora quais são os teus planos?
Fica calado, não esperava a pergunta. Não tem nenhum plano em perspectiva, nem um maldito convite para um congresso de editores; nenhuma apresentação de um livro onde cair morto; nenhuma outra teoria literária para escrever num quarto de Lyon; nada, mas é que nada de nada.
- Estou a ver que não tens planos - diz a mãe.
Ferido no seu amor próprio, permite que Dublin acorra em seu auxílio. (...)
- Ando a preparar uma viagem a Dublin, diz Riba, para arrumar o assunto. (...)
A sua mãe pergunta, com bela candura, o que vai fazer a Dublin. E ele responde a primeira coisa que lhe ocorre: que vai a 16 de Junho, para dar uma conferência. (...)
- Sobre o que é a conferência? - pergunta o pai.
Breve titubear.
- Sobre o romance Ulysses de James Joyce e da passagem da constelação Gutenberg para a era digital. - responde.
Foi a primeira coisa que lhe ocorreu. Depois, faz uma pausa e, a seguir, como se lhe tivesse sido ditado por uma voz interior, acrescenta:
- Na realidade, querem que fale do fim da era da imprensa.
- Vão fechar as tipografias? - pergunta a mãe.
Os seus pais não fazem - que ele saiba - nem a mais remota ideia de quem seja Joyce e ainda menos do género de romance que está por detrás do título de Ulysses, e os quais, além disso, são apanhados desprevenidos pelo tema do fim da era da imprensa, olham-no como se acabassem de confirmar que, embora sendo muito benéfico para a sua saúde, ultimamente anda muito esquisito por causa do estado de sobriedade permanente em que vive submerso desde que há dois anos deixou tão radicalmente o álcool. Intui que os seus pais estão a pensar nisso e não receia pouco, além do mais, que ao pensá-lo tenham a sua quota parte de razão, pois a sobriedade constante afecta-o, para quê enganar-se. Está demasiado ligado ao pensamento e às vezes desliga fatalmente uns segundos e dá respostas que deveria ter pensado melhor, como a que acaba agora mesmo de lhes dar sobre Ulysses e a galáxia Gutenberg.
Deveria ter-lhes respondido qualquer coisa diferente. Mas, como dizia Céline, "uma vez metido, que seja até ao pescoço". Uma vez que já anunciou que vai a Dublin, vai continuar a meter-se no enredo, até ao pescoço, até onde for necessário. Irá a Dublin.


Enrique Vila-Matas - Dublinesca

sábado, 24 de agosto de 2013

# 78



De repente, invade-o uma sensação de clausura e, ao mesmo tempo, de ser mais do que capaz de atravessar as paredes. Algures, à margem de um dos seus pensamentos, descobre uma escuridão que lhe chega aos ossos. Não o surpreende demasiado, está habituado a que isto aconteça em casa dos seus pais.


Enrique Vila-Matas - Dublinesca

# 77



O que é entusiasmo? - perguntou a criança.
Viria a recordar-se sempre dos termos exactos dessa pergunta, porque - acanhado como era nessa idade - foi a primeira que fez na vida.


Enrique Vila-Matas - Dublinesca

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

# 71



(...) a melhor coisa do mundo é viajar e perder teorias, perdê-las todas.


Enrique Vila-Matas - Dublinesca

# 70



E ainda nada nem ninguém o conseguiu convencer que envelhecer tem a sua graça.


Enrique Vila-Matas - Dublinesca