sexta-feira, 1 de abril de 2016

# 295



tornei-me medroso. Conheço essas pequenas frases que parecem não ser nada e que, uma vez admitidas, são capazes de empestar uma língua inteira. Nada é mais real do que o nada. Saem do abismo e não descansam enquanto para lá não arrastam tudo.

Samuel Beckett - Malone Está A Morrer

# 294


Pedi certos movimentos às minhas pernas, aos meus pés. Conheço-os tão bem que pude sentir o esforço que faziam para me obedecerem.

Samuel Beckett - Malone Está A Morrer

# 293



Não desisto ainda.

Samuel Beckett - Malone Está A Morrer

# 292



Um pouco de sombra, por si só, no momento, não é nada. Não se pensa mais no assunto, e continua-se, em plena claridade. Mas eu conheço a sombra, acumula-se, adensa-se, depois explode de súbito e cobre tudo.

Samuel Beckett - Malone Está A Morrer

# 291



Vivi numa espécie de coma.

Samuel Beckett - Malone Está A Morrer

# 290



Outrora não sabia para onde ia, mas sabia que havia de chegar, sabia que havia de se cumprir a longa etapa cega.
(...)
Atrai-me a névoa antiga.
(...)
sinto que talvez não a percorra até ao fim, a estrada bem traçada. Mas tenho alguma esperança.


Samuel Beckett - Malone Está A Morrer

# 289



Talvez não tenha tempo de acabar.

(...)

Passei toda a vida a refrear-me de fixar o balanço, dizendo para comigo, a vinda é cedo, ainda é cedo. Pois bem, ainda é cedo. Passei a vida toda a sonhar com o momento em que, ao fixar-me finalmente, na medida em que isso é possível antes de se ter perdido tudo, poderia fazer as contas e apurar o resultado.

Samuel Beckett - Malone Está A Morrer

# 288



Desta vez sei por onde vou. Já não é a noite de outros tempos, de outrora. (...) Até aqui nunca soube brincar. Apetecia-me, mas sabia que era impossível. Apesar de tudo, esforcei-me, muitas vezes.
(...)
Tudo começava bem (...) Mas não tardava a ficar outra vez sozinho, sem luz. Foi por isso que renunciei a brincar e para sempre fiz meus o informe e o inarticulado, as hipóteses desinteressantes, a sombra, a longa caminhada de braços estendidos para diante, o esconderijo.

Samuel Beckett - Malone Está A Morrer

# 287



Sim, finalmente vou ser natural, sofrerei mais e depois menos

Samuel Beckett - Malone Está A Morrer

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

# 286



como se a espécie tratasse de não deixar avançar demasiado o indivíduo no caminho da tolerância, da dúvida inteligente, do vaivém sentimental. A certa altura nascia o calo, a esclerose, a definição: ou branco ou preto, ou radical ou conservador, homossexual ou heterossexual, figurativo ou abstracto


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 285



em cada acto havia a admissão de uma carência, de algo que ainda não fora feito e que era possível fazer, o protesto tácito perante a evidência contínua da falta, da quebra, da escassez do presente.


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

sábado, 16 de janeiro de 2016

# 286



penso que tanto sentido há em fazer um bonequinho com miolo de pão como em escrever o romance que nunca escreverei ou em defender com a vida as ideias que redimem os povos.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 285



Quantas palavras, quantas nomenclaturas para um só desconcerto.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 284



precisava muito de me aproximar mais de mim, de deixar cair tudo aquilo que me separa do centro. Acabo sempre por aludir ao centro sem ter a menor garantia de saber do que falo, cedo à armadilha fácil da geometria com que alegadamente se organiza a nossa vida de ocidentais: Eixo, centro, razão de ser, Omphalos, nomes da nostalgia indo-europeia.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 283



Por que não aceitar o que estava a acontecer sem tentar explicá-lo (..)?


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 282



tudo me dizia que assim que recuperasse a minha independência deixaria de sentir-me livre.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 281



a irritação de estar a pensar em tudo isso sabendo que, como sempre, custava muito menos pensar do que ser.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 280



Já então me tinha dado conta de que o meu destino era procurar, divisa dos que saem durante a noite sem um propósito exacto, justificação dos assassinos de bússolas.


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

# 279



Eu aproveitava para pensar em coisas inúteis, algo que tinha começado a fazer há alguns anos (...) e que me parecia cada vez mais fecundo e necessário.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 278



apercebi-me num instante que para te ver como eu queria era necessário começar por fechar os olhos

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)


sábado, 26 de dezembro de 2015

# 277



a um mandrião deve dar-se, precisamente, falta de trabalho


Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 276



Dá a impressão que à volta o mundo se vai apertando.


Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 275



é preciso termos constantemente flores à sua volta (...) Para meterem medo à outra.


Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 274


- O que tem ela? (...)

- Um nenúfar! - disse Colin. - Onde é que o teria apanhado?
- Tem um nenúfar? - perguntou Nicolas, incrédulo.
- No pulmão direito - disse Colin.

Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 273



Havia qualquer coisa de etéreo nas variações de Johnny Hodges, qualquer coisa de inexplicável e autenticamente sensual. Sensualidade em estado puro, liberta do corpo. Os cantos do quarto modificavam-se e arredondavam-se sob o efeito da música. Colin e Chloé repousavam agora no centro de uma esfera.

Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 272



No sítio em que os rios se lançam no mar forma-se uma barra difícil de transpor e há grandes remoinhos de espuma onde bailam destroços.

Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 271



[Colin]

O coração ocupava todo o espaço que havia no seu peito, e só naquela altura ele se apercebia do facto.

Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 270



Chloé sentia no corpo uma força opaca, no tórax uma presença inimiga, não sabia como lutar e de vez em quando tossia para expulsar o adversário que se agarrava à sua carne mais profunda. Tinha a impressão, se respirasse fundo, de que iria entregar-se viva à raiva obscurecida do inimigo, à sua insidiosa malignidade.


Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 269



Colin corria, corria, e o ângulo agudo do horizonte comprimido entre as casas vinha ter com ele a toda a velocidade. Debaixo dos seus pés fazia noite. Uma noite de algodão negro, amorfa e inorgânica; e o céu estava sem cor, era um tecto, era mais outro ângulo agudo

(...)

não sabia o que tinha acontecido e corria, sentia medo, porque não basta estarmos sempre juntos, também é preciso sentir medo


Boris Vian - A Espuma dos Dias

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

# 268



A rua ia dar a Chloé.
- Chloé, os teus lábios são doces. Tens uma pele cor de fruto. Os teus olhos vêem as coisas como devem ser vistas, e o teu corpo aquece-me...
(...)
Vão ser precisos meses e meses para eu me fartar dos beijos que te vou dar. Vão ser precisos anos de meses para esgotar os beijos que eu quero dar-te nas mãos, nos cabelos, nos olhos, no pescoço...
(...)
- Chloé, eu queria sentir os teus seios no meu peito, as minhas mãos cruzadas sobre o teu corpo, os teus braços à volta do meu pescoço, a tua cabeça perfumada na curva do meu ombro, a tua pele palpitante, o cheiro que vem de ti...


Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 267



O que me interessa não é a felicidade de todos os homens, mas de cada um em particular.

Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 266



De pé num canto da praça, Colin esperava por Chloé. A praça era redonda, tinha uma igreja, pombos, jardim, bancos, e em frente, no macadame, carros e autocarros. O sol também estava à espera de Chloé mas podia entreter-se a fazer sombras, a germinar sementes de feijão bravo em interstícios adequados, a empurrar postigos e a envergonhar um candeeiro aceso


Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 265


Colin agarrou numa faca de prata e começou a traçar uma espiral na brancura polida do bolo. Parou subitamente e olhou para a obra, surpreendido.
- Vou tentar fazer uma coisa - disse.
Tirou do centro de mesa uma folha do azevinho e agarrou no bolo só com uma mão, fazendo-o girar rapidamente na ponta de um dedo. Com a outra, colocou um dos picos da folha de azevinho sobre a espiral.
- Ouve! - pediu.
Chick ouviu. Era Chloe no arranjo de Duke Ellington.
Chick olhou para Colin. Viu-o muito pálido.
Tirou-lhe a faca das mãos e espetou-a no bolo com um gesto firme. Fendeu-o em dois, e dentro havia um novo artigo de Partre para Chick, e um encontro com Chloé para Colin.

Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 264



Chuchou o dedo e levantou-o acima da cabeça. Baixou-o logo a seguir. Ardia como se estivesse num forno. 
- O amor anda no ar - concluiu. - Está muito calor.

Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 263



O coração de Colin inchou desmesuradamente, fez-se leve, levantou-o do chão e entrou com ele atrás.

Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 262



havia algo no interior do seu tórax a tocar qualquer coisa parecida com música militar alemã, daquela em que se ouve o bombo e mais nada.


Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 261



A espera é um prelúdio em modo menor


Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 260



quando nos apaixonamos, somos idiotas, como sabe.


Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 259



- É horrível! - disse Collin. - Sinto-me desesperado e ao mesmo tempo pavorosamente feliz. É bastante agradável termos a um tal ponto necessidade de qualquer coisa.


Boris Vian - A Espuma dos Dias

domingo, 13 de dezembro de 2015

# 258



Não me parece que o pirilampo extraia grande vantagem do facto incontornável de ser uma das maravilhas mais fenomenais deste circo, e no entanto basta supor nele uma consciência para compreender que, sempre que a sua barriga se acende de luz, ele deve sentir uma espécie de sensação de privilégio.


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 257



sei que andei uns tempos a viver do que me era emprestado, a fazer o que os outros fazem e a ver o que os outros vêem.


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 256



inventamos o nosso incêndio, ardemos de dentro para fora


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 255



A nossa verdade possível tem de ser invenção


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

domingo, 29 de novembro de 2015

# 254



Juntamos duas pessoas que ainda não se tinham juntado.
Então, a dada altura, mais cedo ou mais tarde, por esta ou aquela razão, um deles é levado. E aquilo que é levado é maior do que a soma do que lá estava.
 
 
Julian Barnes - Os Níveis da Vida

# 253



Todas as histórias de amor são potenciais histórias de dor. Se não no princípio, depois. Se não para um, para o outro. Às vezes para ambos.
Então por que aspiramos continuamente a amar? Porque o amor é o ponto onde se encontram a verdade e a magia.
 
Julian Barnes - Os Níveis de Vida

# 252



Juntamos duas pessoas que ainda não se tinham juntado. Às vezes é como a primeira tentativa para prender um balão de hidrogénio a um balão de fogo: preferimos que se despenhe e arda ou que arda e se despenhe? Mas às vezes resulta, e algo novo se faz e o mundo transforma-se.


Julian Barnes - Os Níveis da Vida

# 251




Juntamos duas coisas que ainda não se tinham juntado. E o mundo transforma-se. Nesse momento as pessoas podem não dar por nada, mas não importa. De qualquer maneira, o mundo transformou-se.


Julian Barnes - Os Níveis da Vida

segunda-feira, 20 de julho de 2015

# 250



posso dizer tranquilamente que, entre a vida e os livros, fico com estes, porque me ajudam a entendê-la. A literatura permitiu-me sempre compreender a vida. Mas precisamente por isso deixa-me à margem dela.


Enrique Vila-Matas - O Mal de Montano

domingo, 19 de julho de 2015

# 249



Não gosto nada das pessoas contentinhas. Se dependesse delas, a literatura já tinha desaparecido da face da terra. No entanto, as pessoas "normais" são apreciadas em todo o lado. Todos os assassinos são, para os seus vizinhos, tal como se vê sempre na televisão, pessoas satisfeitas e normais.
(...)
Odeio esta grande parte da humanidade "normal" que dia a dia destrói o meu mundo. Odeio as pessoas que são de uma grande bondade porque ninguém lhes deu a oportunidade de saber o que é o mal e poderem então escolher livremente o bem; pareceu-me sempre que esse tipo de gente bondosa é gente de uma maldade extraordinária em potência. 

Enrique Vila-Matas - O Mal de Montano

# 248



existe uma actividade que poderíamos chamar proustiana, que consiste em recordar com sensibilidade e inteligência coisas do passado. (...) existe uma magnífica retaguarda literária na arte de contar histórias melancólicas.


Enrique Vila-Matas - O Mal de Montano

# 247



para qualquer lado que nos voltemos, chocamos logo com a incorrigível vulgaridade da humanidade, que está em legiões em todo o lado, enchendo tudo e sujando tudo, como as moscas no verão


Enrique Vila-Matas - O Mal de Montano

# 246



vivo rodeado de citações de livros e autores. Enfermo da literatura.


Enrique Vila-Matas - O Mal de Montano

# 245



Talvez literatura seja isso: inventar outra vida que bem poderia ser a nossa, inventar um duplo.

Enrique Vila-Matas - O Mal de Montano

segunda-feira, 13 de julho de 2015

# 244



a filosofia parece ocupar-se só da verdade, mas talvez diga só fantasias, e a literatura parece ocupar-se só de fantasias, mas talvez diga a verdade.

Antonio Tabucchi - Afirma Pereira

domingo, 5 de julho de 2015

# 243



além de tentar sem sorte nenhuma afligir com o meu desaparecimento os seres queridos (vou vendo que não tenho), vim para aqui para me narrar a história do ambíguo desaparecimento do sujeito na nossa civilização e contar-ma através de uns fragmentos da história da minha vida, como se me tivessem injectado a mim mesmo toda essa história da subjectividade no Ocidente e, além disso, me tivessem instruído para que tentasse desaparecer contando, passo a passo, como vou levando a cabo a cerimónia do meu eclipse.


Enrique Vila-Matas - Doutor Pasavento

# 242



As ruínas remetem sempre para algo que não desapareceu de todo.


Enrique Vila-Matas - Doutor Pasavento

# 241



pode dizer-se que o sujeito moderno não surgiu do contacto com o mundo, mas sim em quartos isolados onde os pensadores se encontravam sozinhos com as suas certezas e incertezas, sozinhos consigo mesmos.


Enrique Vila-Matas - Doutor Pasavento

# 240



suspeito que, paradoxalmente, toda essa paixão por desaparecer, todas essas tentativas, chamemos-lhe suicidas, são ao mesmo tempo tentativas de afirmação do meu eu.


Enrique Vila-Matas - Doutor Pasavento

segunda-feira, 29 de junho de 2015

# 239



tinha abandonado a vida real e só tinha a ver com palavras, um mar onde se perde e onde ele tem, no entanto, a sensação de estar numa situação de plenitude. Solidão, loucura, silêncio, liberdade.
A sua experiência só se consegue expressar através de paradoxos (...) domina-o a sensação de ser empurrado para a frente precisamente pela sua recusa em avançar. Isso dá-lhe uma grande sensação de bem-estar, melhor dizendo, de bela infelicidade.


Enrique Vila-Matas - Doutor Pasavento

# 238



pus-me a pensar na magia das despedidas radicais, no encanto das despedidas radicais dessas pessoas que tanto admiramos quando vimos a saber que foram capazes de mandar tudo para o diabo, que bateram com a porta e se foram embora, não sem antes dizer fiquem aí, seus cabrões.
Quando ouvimos dizer que alguém deixou toda a gente pendurada, nós em silêncio, com raiva contida, aprovamos esse audaz, purificador, elementar impulso. Como não haveríamos de aprovar se todos odiamos o nosso domicílio, o lar nos aborrece, ter de estar nele? Eu, pelo menos, já as tinha começado a jurar ao meu domicílio. Era um entusiasta da Teoria de los abandonos, um poema de Philip Larkin: "Todos odiamos a nossa casinha, / ter de viver nela: / eu detesto o meu quarto, / os seus trastes especialmente escolhidos / a bondade dos livros e a cama / e a minha vida perfeitamente em ordem."


Enrique Vila-Matas - Doutor Pasavento

sábado, 27 de junho de 2015

# 237



Um rasto de mortos. "Todos estes mortos à nossa volta, onde sepultá-los, senão na linguagem?", pergunta Adónis, o poeta sírio-libanês


Enrique Vila-Matas - Doutor Pasavento

# 236



embora eu sempre tenha sentido uma grande atracção por esse tipo de viagens que fazemos sem uma ideia de retorno e que nos abrem portas e que podem mudar as nossas vidas, muito maior ainda tinha sido sempre a minha atracção por esse tipo de viagens ou pequenas excursões, sem aventura nem imprevistos, que em poucas horas nos conduzem de novo ao nosso porto, todas essas viagens que outrora nos levavam até ao muro da casa familiar nos verões da infância e agora a nossa casa dos dias actuais.

Enrique Vila-Matas - Doutor Pasavento

# 235



Não sei se toda a gente sabe que, quando ficamos sozinhos muito tempo, descobrem-se cada vez mais coisas em todo o lado onde para os outros não existe nada.

Enrique Vila-Matas - Doutor Pasavento

# 234



se olharmos durante muito tempo para o abismo, o abismo acabará por nos observar também.


Enrique Vila-Matas - Doutor Pasavento

# 233



eu sou adepto da tenebrosa linha de sombra destes tempos em que tudo finalmente se nos tornou incompreensível e, quando nos falam do mundo, já não sabemos do que é que se trata e sentimos que tudo isso podia ser precisamente o começo de algo que poderia manter-nos muito entretidos, talvez obcecados, durante um longo período de tempo, embora, isso sim, connosco sempre estupefactos, sem entender nada, nem saber do que se trata todo este maldito imbróglio da vida, a morte e outras bagatelas, sem uma única ideia válida para compreender o mundo


Enrique Vila-Matas - Doutor Pasavento

# 232



E eu sou parecido com quem? Seguramente que tenho algo de equilibrista que, numa alameda do fim do mundo, se passeia pela linha do horizonte. E creio que me movo como um explorador que avança no vazio. Não sei, trabalho nas trevas e é tudo misterioso. Só sei que me fascina escrever sobre o mistério de que exista o mistério da existência do mundo, porque adoro a aventura que há em todo o texto que pomos em andamento, porque adoro o abismo, o próprio mistério, e adoro, além disso, essa linha de sombra que, ao cruzá-la, vai parar ao território do desconhecido, um espaço onde de repente tudo nos é muito estranho, sobretudo quando vemos, como se estivéssemos no estado infantil da linguagem, nos toca voltar a aprender tudo, embora com a diferença de que, em criança, nos parecia que podíamos estudar e entender tudo, enquanto que na idade da linha de sombra vemos que o bosque das nossas dúvidas nunca se tornará nítido e que, além disso, o que a partir de então iremos encontrar serão apenas sombras e treva e muitas perguntas.
Então, quando nos acontece uma coisa destas, eu creio que o melhor que podemos fazer é continuar em frente, nem que seja só para ter a impressão de sermos empurrados para a frente pela nossa própria recusa em avançar.

Enrique Vila-Matas - Doutor Pasavento

sábado, 20 de junho de 2015

# 231


Nós combatemos a nossa superficialidade, a nossa mesquinhez, para tentarmos chegar aos outros sem esperanças utópicas, sem uma carga de preconceitos ou de expectativas ou de arrogância, o mais desarmados possível, sem canhões, sem metralhadoras, sem armaduras de aço com dez centímetros de espessura; aproximamo-nos deles de peito aberto, na ponta dos dez dedos dos pés, em vez de estraçalhar tudo com as nossas pás de catterpillar, aceitamo-los de mente aberta, como iguais, de homem para homem, como se costuma dizer, e, contudo, nunca os percebemos, percebemos tudo ao contrário.
Mais vale ter um cérebro de tanque de guerra. Percebemos tudo ao contrário, antes mesmo de estarmos com eles, no momento em que antecipamos o nosso encontro com eles; percebemos tudo ao contrário quando estamos com eles; e, depois, vamos para casa e contamos a outros o nosso encontro e continuamos a perceber tudo ao contrário.
Como, com eles, acontece a mesma coisa em relação a nós, na realidade tudo é uma ilusão sem qualquer percepção, uma espantosa farsa de incompreensão. E, contudo, que fazer com esta coisa terrivelmente significativa que são os outros, que é esvaziada do significado que pensamos ter e que, afinal, adquire um significado lúdico; estaremos todos tão mal preparados para conseguirmos ver as acções intímas e os objectivos secretos de cada um de nós? Será que devemos todos fecharmo-nos e mantermo-nos enclausurados como fazem os escritores solitários, numa cela à prova de som, evocando as pessoas através das palavras e, depois, afirmar que essas evocações estão mais próximas da realidade do que as pessoas reais que destroçamos com a nossa ignorância, dia após dia? Mantém-se o facto de que o compreender as pessoas não tem nada a ver com a vida. O não as compreender é que é a vida, não compreender as pessoas, não as compreender, não as compreender, e depois, depois de muito repensar, voltar a não as compreender. É assim que sabemos que estamos vivos: não compreendemos. Talvez o melhor fosse não ligar ao facto de nos enganarmos ou não sobre as pessoas e deixar andar. Se conseguirem fazer isso - estão com sorte.

Philip Roth - Pastoral Americana

domingo, 14 de junho de 2015

# 230



Paciente: A noite passada sonhei que Jennifer Lopez e Angelina Jolie estavam na minha cama e que fizemos amos os três a noite inteira.
Psiquiatra: Obviamente, tem um desejo profundamente enraizado de dormir com a sua mãe.
Paciente: O quê?! Nenhuma dessas mulheres se parece remotamente com a minha mãe.
Psiquiatra: Aha! Uma formação reactiva. Está, sem dúvida, a reprimir os seus verdadeiros desejos.

A história que acabei de contar não é uma piada - na verdade, é a forma como alguns freudianos raciocinam. E o problema do seu raciocínio é que não existe um conjunto concebível de circunstâncias concretas que refutem a sua teoria edipiana. Na crítica que fez à lógica indutiva, o filósofo do século XX, Karl Popper, argumentou que para uma teoria ser válida tem de haver algumas circunstâncias possíveis cuja falsidade possa ser demonstrada. Na pseudopiada acima, não existem circunstâncias que o terapeuta freudiano admitirá como prova.
Aqui têm uma piada verdadeira que foca a opinião de Popper ainda mais claramente:

Dois homens estão a fazer o pequeno-almoço. Um deles barra a torrada com manteiga e diz:
- Já reparaste que quando deixamos cair uma torrada, ela cai sempre com o lado da manteiga para baixo?
O segundo tipo diz:
- Não, aposto que só parece assim porque é horrível limpar a gordura quando a torrada cai com a manteiga para baixo.
O primeiro tipo diz:
- Ah, sim? Repara nisto. - Deixa cair a torrada e ela fica com o lado da manteiga voltado para cima.
- Estás a ver? Eu bem te disse - declara o segundo tipo.
- Oh, já sei o que aconteceu - replica o primeiro. - Pus a manteiga do lado errado!

Para este tipo, nenhuma prova falsificará a sua teoria.


Thomas Cathcart / Daniel Klein - Platão e um Ornitorrinco entram num Bar

quinta-feira, 11 de junho de 2015

# 229



ABERRAÇÃO, n. Qualquer desvio de outra pessoa relativamente aos nossos hábitos de pensamento, quando ainda não se lhe pode chamar demência.


Ambrose Bierce - Dicionário do Diabo

segunda-feira, 4 de maio de 2015

# 228



A mudança parecia ter-se operado sem dor, de uma só vez, e de tal forma que a própria Orlando não manifestou surpresa ao confirmá-la. Muitos foram os que, levando isto em conta, e sustentando que tal mudança de sexo é contranatura, se esforçaram por provar (1) que Orlando sempre havia sido mulher, ou (2) que Orlando é neste momento um homem. Os biólogos e os psicólogos que decidam. Pela nossa parte, limitamo-nos a afirmar um simples facto: Orlando foi homem até aos trinta anos de idade; tornou-se então mulher, e mulher continuou daí em diante.
Mas outras penas que tratem de sexo e sexualidade; nós fugimos a tão odioso assunto assim que podemos.


Virgínia Woolf - Orlando

# 227



Orlando tornara-se mulher - é inegável. Mas, sob todos os outros aspectos, Orlando continuava a ser exactamente como era. A mudança de sexo, embora modificasse o seu futuro, em nada modificou a sua identidade.



Virgínia Woolf - Orlando

segunda-feira, 6 de abril de 2015

# 226



o segredo das Grandes Histórias é elas não terem segredo nenhum. As Grandes Histórias são aquelas que já ouvimos e queremos voltar a ouvir. Aquelas onde podemos entrar e morar confortavelmente. Que não nos enganam com calafrios e finais acrobáticos. Que não nos surpreendem com o imprevisto. Que são tão familiares como a casa onde moramos. Ou o cheiro da pele de um amante. Sabemos como acabam, porém ouvimo-las como se não o soubéssemos. Tal como, sabendo que um dia havemos de morrer, vivemos como se não o soubéssemos. Nas Grandes Histórias sabemos quem vive, quem morre, quem encontra o amor e quem não encontra. E contudo, queremos saber de novo.
É esse o seu mistério e a sua magia.

Arundhati Roy - O Deus das Pequenas Coisas

# 225



- Ammu, quando se está feliz num sonho, isso conta? - perguntou Eshta.
- Isso conta?
- A felicidade - conta?
Ela sabia muito bem o que o seu filho de poupa desarranjada queria dizer. 
Porque a verdade é que só conta o que conta.
A sabedoria simples e inabalável das crianças.
Quando se come peixe num sonho, isso contava? Quer isso dizer que se comeu peixe?

Arundhati Roy - O Deus das Pequenas Coisas


# 224



Eshta pensou Dois Pensamentos e os Dois Pensamentos que pensou foram os seguintes:

(a) Tudo pode acontecer a Todos
E
(b) É melhor estar preparado

Arundhati Roy - O Deus das Pequenas Coisas



# 223



é tão fácil estilhaçar uma história. Quebrar a cadeia de pensamentos. Destruir o fragmento de um sonho transportado com tanto cuidado como se fosse uma peça de porcelana.
Deixá-lo existir, viajar com ele, como Velutha fez, é de longe a coisa mais difícil.

Arundhati Roy - O Deus das Pequenas Coisas



sexta-feira, 3 de abril de 2015

# 222



Da janela da sala de estar onde se encontrava, com o cabelo ao vento, Rahel via a chuva a bater no telhado de chapa ferrugenta daquilo que fora a fábrica de pickles da avó.
Pickles & Conservas Paraíso.
Entre a casa e o rio.
Fabricavam pickles, sumos, compotas, pó de caril e ananás enlatado. E compota de banana (ilegalmente) depois de a O.P.A. (Organização dos Produtos Alimentares) a banir porque, segundo os seus critérios, aquilo não era compota nem geleia. Demasiado líquida para geleia e demasiado espessa para compota. Uma consistência ambígua, inclassificável, diziam eles.
Segundo rezavam os seus livros.
Olhando agora para trás, parecia a Rahel que essa dificuldade da família com classificações tinha raízes muito mais fundas do que a questão da compota-geleia.
Talvez Ammu, Eshta e ela própria fossem os piores transgressores. Mas não eram os únicos. Havia também os outros. Todos eles quebraram as regras. Todos eles atravessaram território proibido. Todos eles perverteram as leis que estipulavam quem devia ser amado e quem não devia.
(...) 
tudo começou realmente na época em que as Leis do Amor foram feitas. As leis que estipulavam quem devia ser amado, e como.
E quanto.


Arundhati Roy - O Deus das Pequenas Coisas

sexta-feira, 27 de março de 2015

# 221


Talvez seja verdade que tudo pode mudar num dia. Que umas escassas dúzias de horas podem afectar o curso de toda uma vida. E que, quando assim acontece, essas poucas dúzias de horas, como os despojos de uma casa queimada - o relógio carbonizado, a fotografia chamuscada, a mobília ardida - têm de ser ressuscitadas das ruínas e examinadas. Conservadas. Explicadas.
Pequenos acontecimentos, coisas vulgares, destruídas e reconstituídas. Investidas de novo significado. Subitamente tornam-se nos ossos descorados de uma história.

Arundhati Roy - O Deus das Pequenas Coisas

quarta-feira, 25 de março de 2015

# 220

Na sua mocidade, Stoner imaginara o amor como um estado absoluto do ser ao qual uma pessoa, se tivesse sorte, podia aceder um dia; na idade adulta, decidira que era o paraíso de uma falsa religião, que uma pessoa devia encarar com uma divertida incredulidade, um suave desprezo familiar e uma nostalgia embaraçada. Agora, na meia-idade, começava a perceber que não era nem um estado de graça, nem uma ilusão; via-o como um acto humano de transformação, uma condição que era inventada e alterada de momento para momento e de dia para dia, através da vontade, da inteligência e do coração.

John Williams - Stoner

# 219


No seu quadragésimo terceiro ano de vida, William Stoner aprendeu o que outros, muito mais jovens do que ele, tinham aprendido antes de si: que a pessoa que amamos no início não é a mesma pessoa que amamos no fim, e que o amor não é uma meta e sim um processo através do qual uma pessoa tenta conhecer outra.

John Williams - Stoner 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

# 218



Nunca nos devemos separar da humanidade: ao afastarmo-nos, corremos o risco de lhe encontrar circunstâncias atenuantes.

Albert Cossery - Uma Conjura de Saltimbancos

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

# 217



Deixa-me dizer-te que ninguém sacrifica a sua vida por uma causa, justa ou injusta, mas apenas para obedecer a uma pulsão interior mais forte do que o apego à vida. No dia em que for para a rua com uma metralhadora na mão, não será nem pelo amor pelo povo, nem em nome da justiça, nem em nome de ninguém, mas porque terá chegado o momento em que terei sentido uma necessidade visceral de abater os sinistros sacanas que governam o mundo.


Albert Cossery - Uma Ambição no Deserto

# 216



sempre se defendera dos sonhos, mesmo dos mais simples, pois sabia que qualquer sonho, mesmo se realizado, contém em si o arrependimento dos momentos perdidos e das felicidades recalcadas.


Albert Cossery - Uma Ambição no Deserto

# 215



- Foi quando era muito jovem que decidi tornar-me louco, tal como decidimos tornar-nos médicos ou advogados. Os loucos usufruem de circunstâncias atenuantes e é-lhes permitido exprimirem-se com toda a liberdade. E eu queria - era a minha única ambição - poder dizer ao mundo toda a minha repulsa e o meu ódio sem arriscar represálias. Era um sonho bonito para quem tinha descoberto a doutrina ignóbil que regia o mundo. No princípio foi difícil fazer aceitar o meu novo estado; não me levavam a sério. Foi então que me pus a barafustar contra a política e a corrupção dos governos locais e estrangeiros. Não fazia distinções. Os meus ataques horrorizaram-nos e tiveram a certeza de que eu era realmente louco. Reparaste que, de cada vez que um rei ou um presidente de um país é assassinado, o seu assassino é imediatamente considerado louco? Como se só os assassinos que matam um velhote miserável para o roubar fossem seres sensatos.
- É o tipo de lógica que sempre me deu vontade de rir. Mas regressemos à tua condição de louco. Tudo se passou como esperavas?
- Melhor ainda do que esperava. Os adultos respeitam-me porque têm um medo supersticioso da loucura e as crianças gostam de mim porque a loucura as diverte. Posso dar-me ao luxo de pensar que vivi todos estes anos numa liberdade que pareceria utópica para a maior parte dos homens. Tinha todos os direitos e nenhum dever em relação a quem quer que fosse. É uma experiência eufórica e que recomendo a todos os espíritos rebeldes.
- Lamento profundamente não te ter conhecido mais cedo. São dias de alegria perdidos para mim.


Albert Cossery - Uma Ambição no Deserto

sábado, 17 de janeiro de 2015

# 214



Falhar o seu próprio suicídio não é necessariamente o que há de pior na existência. Não se pode ser sempre bem-sucedido em tudo.


Arto Paasilinna - Um Aprazível Suicídio em Grupo

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

# 213



estes vossos gracejos irreflectidos hão-de, mais tarde ou mais cedo, meter-vos em sarilhos e dificuldades, dos quais nenhuma inspiração de última hora vos poderá desenvencilhar. - Nestas arremetidas, parece-me, acontece muitas vezes que a pessoa que é motivo de galhofa se encara a si mesma à luz de pessoa ofendida, com todos os direitos inerentes à situação; e quando a virdes vós também a essa luz e lhe acrescentardes os amigos, a família, os parentes e os aliados, - e os muitos recrutas convocados e que se alistam na sua causa por sentirem o perigo comum; - não será uma aritmética muito exagerada afirmar que, por cada dez graçolas, - arranjais vós uns cem inimigos; e a menos que por este andar, acabeis por ser atacado por um enxame de vespas que vos deixem meio morto, nunca disso vos convencereis.
Não posso imaginar que haja no homem que estimo a menor ponta de rancor ou má intenção nestas arremetidas. - Creio e sei perfeitamente que elas são realmente francas e brincalhonas: - Mas considerai apenas, meu caro rapaz, que os parvos não conseguem entender isso; - e que os velhacos não o querem; e não se sabe porquê, se é para provocar uns, ou para divertir os outros, - sempre que se associam  para mútua defesa, podeis estar certo, hão-de levar a cabo uma tal guerra contra vós, meu caro amigo, que vos há-de deixar desgostoso dela e também da vida.


Laurence Sterne - A Vida e Opiniões de Tristam Shandy

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

# 212



Não há época do ano melhor e mais generosa, para o mundo da indústria e do comércio, do que o Natal e as semanas que o antecedem. Sobe das ruas o som trémulo das gaitas de foles; e as sociedades anónimas, até ontem friamente ocupadas a calcular a facturação e os dividendos, abrem o coração aos afectos e ao sorriso. Agora a única preocupação dos conselhos de administração é a de dar alegria ao próximo, mandando presentes acompanhados de votos de felicidades tanto a empresas confrades como a particulares; todas as empresas se sentem no dever de comprar um grande stock de produtos de uma segunda empresa para fazer as suas ofertas às outras empresas; as quais por sua vez compram a uma empresa outros stocks de presentes para as outras; as janelas empresariais ficam iluminadas até tarde, especialmente as dos armazéns, onde o pessoal continua em horas extraordinárias a embalar embrulhos e caixotes (...) entre os homens de negócios, as graves contendas de interesses aplacam-se e dão lugar a uma nova disputa: a de ver quem apresenta do modo mais gracioso o presente mais conspícuo e original.
Na Svab, nesse ano, o Gabinete de Relações Públicas propôs que aos clientes e fornecedores de maior cerimónia os presentes fossem enviados ao domicílio por um homem vestido de Pai Natal.
A ideia suscitou a aprovação unânime dos dirigentes. Foi comprada uma roupa de Pai Natal com o equipamento completo: barba branca, boné e capote vermelhos debruados a pele, e botas. (...) Todos estavam tocados pela atmosfera álacre e cordial que se expandia pela cidade festiva e produtora; (...)
O Chefe do Departamento de Pessoal entrou no armazém com uma barba postiça na mão: - Eh, tu! - disse para Marcovaldo - Experimenta lá como ficas com esta barba. Muito bem! O Natal és tu. Vem comigo lá acima, despacha-te! Vais ter um prémio especial se fizeres cinquenta entregas ao domicílio por dia.
Marcovaldo camuflado de Pai Natal percorreu a cidade, na sela do triciclo a motor, carregado de pacotes embrulhados em papel colorido, atado com belas fitas e adornos de raminhos de visco e de azevinho. A barba branca de algodão em rama fazia-lhe cócegas mas servia para lhe proteger a garganta do vento.
A primeira corrida fê-la a casa, porque não resistiu à tentação de fazer uma surpresa aos miúdos. "Ao princípio", pensava, "não vão reconhecer-me. Como irão rir-se depois!"
As crianças estavam a brincar na escada. Mal se voltaram. - Olá, pai.
Marcovaldo ficou decepcionado. - Eh...Não vêem como estou vestido?
- E como queres estar vestido? - disse Pietruccio - De Pai Natal, não?
- E reconheceram-me logo?
- Custa muito! Até reconhecemos o senhor Sigismondo que vinha mais bem disfarçado do que tu!
- E o cunhado da porteira!
- E o pai dos gémeos que moram aqui defronte!
- E o tio da Ernestina, aquela das tranças!
(...)
Tinha acontecido que ao Departamento de Relações Públicas de muitas firmas viera simultaneamente a mesma ideia; (...) As crianças, depois de se terem divertido as primeiras vezes a reconhecer debaixo daquela máscara os conhecidos e as pessoas do bairro, passado algum tempo já se tinham habituado e já não ligavam importância. (...)
- Pai, deixa-nos em paz, porque temos de preparar as prendas.
- Prendas para quem?
- Para um menino pobre. Temos de procurar um menino pobre e dar-lhe prendas. 
(...)
Marcovaldo esteva para dizer: "Os meninos pobres são vocês!", mas durante aquela semana persuadira-se tanto a considerar-se um habitante da Terra da Fartura (...) que não lhe pareceu boa educação falar de pobreza (...) Mas como de qualquer maneira devia fazer-se perdoar por ter vindo de mãos vazias, pensou levar Michelino consigo na sua volta de entregas. (...)
- Vamos, talvez encontre um menino pobre - disse Michelino, e saltou para o veículo, agarrando-se aos ombros do pai.
(...)
Bateu à porta de uma casa luxuosa. Veio abrir uma governanta. - Uh, mais outro pacote, quem o manda?
- A Svab deseja...
- Bem, venha cá pôr - e marchou à frente do Pai Natal por um corredor todo cheio de tapeçarias e vasos de porcelana. Michelino, de olhos muito abertos, seguia atrás do pai.
A governanta abriu uma porta de vidro. (...) Os brinquedos, espalhados num grande tapete, eram tantos como numa loja de brinquedos, sobretudo complicados mecanismos electrónicos e modelos de astronaves. No tapete, num cantinho livre, estava um menino deitado de bruços, de uns nove anos, com um ar amuado e aborrecido. Folheava um livro ilustrado, como se tudo o que estava ali à volta não lhe dissesse respeito.
(...)
Em bicos dos pés Marcovaldo e Michelino deixaram a casa.
- Pai, aquele menino é um menino pobre? - perguntou Michelino.
(...)
- Pobre? O que estás a dizer? Sabes quem é o pai dele? É o Presidente da União para o Incremento das Vendas Natalícias. O Comendador...
Interrompeu-se porque não viu Michelino. (...) Tinha desaparecido.
(...)
Em casa, foi dar com Michelino junto dos irmãos, muito sossegado.
- Diz-me lá, onde te meteste?
- Vim para casa, buscar as prendas...Sim, as prendas para aquele menino pobre...
- Eh! Quem?
- Aquele que estava tão triste...o da vivenda com a árvore de Natal...
- A ele? Mas que prendas podias dar-lhe, tu a ele?
- Oh, tínhamo-las preparado bem...três prendas, embrulhadas em papel prateado.
Intervieram os irmãos. - Fomos todos juntos levar-lhas! Se visses como ficou contente!...
- Imaginem! - disse Marcovaldo. - precisava mesmo das vossas prendas para ficar contente!
- Sim, sim, das nossas. Foi logo a correr rasgar o papel para ver o que eram...
- E o que eram?
- A primeira era um martelo: aquele martelo grande, redondo, de madeira...
- E ele?
- Saltou de alegria! Pegou nele e começou a usá-lo!
- Como?
- Partiu os brinquedos todos! E os cristais! Depois pegou na segunda prenda...
- O que era?
- Uma fisga. Havias de vê-lo, que contentamento...Quebrou as bolas de vidro todas que estavam na árvore de Natal. Depois passou aos lustres...
- Basta, basta, não quero ouvir mais! E...a terceira prenda?
- Não tínhamos mais nada para lhe oferecer, e por isso embrulhámos em papel prateado uma caixa de fósforos de cozinha. Foi a prenda que o deixou mais feliz. Dizia: "Em fósforos, nunca me deixam mexer!". Começou a acendê-los, e...
- E?
- ...Deitou fogo a tudo!
Marcovaldo levou as mãos à cabeça. - Estou arruinado!
No dia seguinte, ao apresentar-se na firma, sentia adensar-se a tempestade. Vestiu-se de Pai Natal muito à pressa, carregou na furgoneta os pacotes a entregar, já espantado por ainda ninguém lhe ter dito nada, quando viu virem direito a ele três chefes de departamento, o das Relações Públicas, o da Publicidade e o do Departamento Comercial.
(...)
- Depressa! Tem de substituir os pacotes! - disseram os chefes. A União para o Incremento das Vendas Natalícias inaugurou uma campanha para o lançamento da Prenda Destruidora. (...) Foi uma descoberta de última hora do Presidente (...) Parece que o filho dele recebeu de prenda uns artigos moderníssimos, creio que japoneses, e pela primeira vez o viu divertir-se...
- O que conta acima de tudo (...) é que a Prenda Destruidora serve para destruir artigos de todos os géneros: é o que faz falta para acelerar o ritmo dos consumos e dar uma nova vivacidade ao mercado...Tudo num tempo curtíssimo e ao alcance de uma criança...O Presidente da União viu abrir-se um novo horizonte, está no auge do entusiasmo...
- Mas esse menino - perguntou Marcovaldo com um fio de voz - destruiu realmente muita coisa?
- Fazer um cálculo, mesmo aproximado, é muito difícil, dado que a casa ficou incendiada...

(...)

Italo Calvino - Marcovaldo - [Os filhos do Pai Natal]

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

# 211



Nas origens e nas raízes do ocidente está a ira, indissociável da aurora da poesia que funda a nossa civilização: "Canta-me, ó deusa, do Peleio Aquiles a ira tenaz", diz o primeiro verso da Ilíada. O poema, que se identifica com a poesia tout court, é, antes de mais, a epopeia da cólera. Esta última surge de imediato como uma paixão negativa, portadora de desventura: diz-se que trouxe infinitos lutos aos aqueus, tendo arrastado para a morte tantos heróis e dado em pasto aos cães e aos pássaros os seus corpos. A ira de Aquiles não é a única: há a ira de Zeus pelo rapto de Helena, a de Apolo pela ofensa ao seu sacerdote Crises; a de Agamémnon, pela escrava que lhe é roubada. A cada paixão acresce o facto de ser ruinosa, mas neste caso a cólera ameaça arruinar toda uma grande colectividade, fazer perder a guerra a toda a Grécia coligada contra Tróia.
Não se trata, por outro lado, de uma cólera qualquer; a palavra grega menis - recorda Maria Graça Ciani - tem um valor sacral e indica a reacção a uma profunda e injusta ofensa à honra pública de um deus ou de um guerreiro, ou seja, a um profundo direito da pessoa, sancionado por um ritual ou por um costume vividos como uma lei religiosa. A ira é, pois, pelo menos inicialmente, justa e devida, uma resposta não só psicologicamente mas também e sobretudo eticamente motivada e necessária. Se ela entretanto é imoderada, desmesurada - a selvagem e incontrolável fúria de Aquiles - é fonte de desgraça. Nasce da fera reivindicação do próprio direito/dever, e portanto de si mesma, mas é perigosamente vizinha da loucura, da perda do autodomínio, como refere o provérbio latino ira brevis furor, a ira é um breve furor. Da cólera de Aquiles à loucura furiosa de Ajax, a passagem é breve.
Desde as origens, a civilização ocidental alerta para os perigos da ira, mas reconhece nela uma grandeza. Irritam-se heróis e deuses gregos, mas também o Senhor da Bíblia mostra a cada passo um rosto colérico: a sua cólera, que abate os soberbos e os arrogantes, é inseparável da sua justiça e é necessária à salvação do mundo. Até Jesus manifesta sem inibições a sua cólera, por exemplo quando desata a fustigar os mercadores do templo. O último dia - o dia do Senhor, da verdade - é um Dies Irae.


Claudio MagrisAlfabetos

domingo, 30 de novembro de 2014

# 210



Escrever - dizia Marguerite Duras - também é não falar, é calar-se. É uivar sem ruído.


Enrique Vila-Matas - Bartleby & Companhia

# 209



Ser copista não tem nada de horrível. Quando se copia uma coisa, pertence-se à estirpe de Bouvard e Pécuchet (os personagens de Flaubert) ou de Simon Tanner (com o seu criador Walser a contra-luz) ou dos funcionários anónimos do tribunal kafkiano.
Além disso, ser copista é ter a honra de pertencer à constelação Bartleby.


Enrique Vila-Matas - Bartleby & Companhia

domingo, 2 de novembro de 2014

# 208



A espécie humana é menos diferenciada pelo sexo do que muitas...o macho e a fêmea de certos parasitas intestinais, creio eu, não se parecem mesmo nada. Nós, os homens e as mulheres, somos ambos feitos para correr, para nos pendurarmos nas árvores e para comermos nozes e bagas.


John Updike - Procurai a Minha Face

# 207



Quando tudo estiver decidido, será tarde de mais. O momento é sempre agora. Acaba por nunca haver depois. Tudo o que é real é uma espécie de agora.


John Updike - Procurai a Minha Face