quinta-feira, 29 de março de 2018

# 431


não supunha que os hospitais tão claros, só reboco e metal, nem que sofrer fosse assim, o coração difícil de equilibrar que resiste, não resiste, resiste, sete horas nos relógios antigos e quantas horas nele, amarrotadas, torcidas

António Lobo Antunes - Sôbolos Rios que Vão

# 430


nem um grito apesar de tantos gritos, cada gesto que não fazia gritava, cada movimento de cabeça na almofada gritava, cada centímetro de pele gritava, que difícil esconder este medo

António Lobo Antunes - Sôbolos Rios que Vão

# 429


a certeza que não dormiria esta noite apesar do comprimido no copinho de plástico, o comprimido escorregou para se fundir numa prega do lençol e em vez do comprimido o carimbo do hospital impresso no pano, se o avô lhe emprestasse os óculos descobria o remédio, lembrou-se dos lençóis com ursinhos que tivera em catraio, todos os ursinhos de gorro e cachecol felicíssimos (...) graças aos ursinhos a doença nos antípodas, ganas de vestir-se e partir sob a chuva
- Foi um engano dos médicos
(...)
e no entanto apesar do engano dos médicos um aperto, um enjoo, uma dor que quase abranda permanecendo ali

António Lobo Antunes - Sôbolos Rios que Vão

# 428


- A minha mãe curava tudo com uma aspirina
convicto que tinha logrado um sorriso mais difícil de equilibrar que o coração sem que lhe admirassem o esforço, curava tudo com uma aspirina, dores de cabeça, anginas, medo de bichos, insônias, não punha o termómetro, encostava a bochecha à sua
- Estás óptimo
e por segundos uma doçura de perfume é um sabor de carne viva, a palavra filho a fazer sentido

António Lobo Antunes - Sôbolos Rios que Vão

# 427


o electrocardiograma a registar as lágrimas numa fita de papel


António Lobo Antunes - Sôbolos Rios que Vão

# 426


o coração difícil de equilibrar em segredo, não imaginava que coubessem tantas lágrimas naquilo, se ao menos caíssem por dentro em vez de molharem a cara no momento em que a anestesista fazia perguntas

António Lobo Antunes - Sôbolos Rios que Vão

# 425


o cheiro do seu nervoso anulava o cheiro do hospital sem anular o cheiro das compotas


António Lobo Antunes - Sôbolos Rios que Vão

# 424


daqui a pouco a noite e a miséria do seu corpo no escuro, a voz dele independente de si
- Não
e por quantas semanas continuaria a ter voz, por quantas semanas
-Não
até a garganta apodrecer por seu turno e quando a garganta apodrecida que ecos,


António Lobo Antunes - Sôbolos Rios que Vão

# 421


que misteriosa a vida, davam-lhe banho na selha da cozinha e o desconforto de estar nu à vista da empregada, pequeno, magro submisso tal como na enfermaria pequeno, magro e submisso de novo

António Lobo Antunes -Sôbolos Rios que Vão

segunda-feira, 26 de março de 2018

# 420


células podres do intestino a invadirem-no destruindo os pulmões, os ossos, o fígado e crianças vestidas de serafim com asas mal coladas nas costas, que terrível e cómica a morte, troça de ti mesmo, despreza-te, no livro de História as datas do nascimento e da agonia dos reis que não lhe faziam diferença por não serem as dele

António Lobo Antunes - Sôbolos Rios Que Vão

# 419


o nervoso jogou-lhe uma garra ao coração feito de pavor e lágrimas, difícil de equilibrar em segredo, nem um grito apesar de tantos gritos em si, cada gesto que não fazia gritava, cada movimento da cabeça gritava, cada pedaço da pele contra o lençol gritava

António Lobo Antunes - Sôbolos Rios Que Vão

# 419


que designação esquisita a seu respeito, cancro, que impensável morrer


António Lobo Antunes - Sôbolos Rios Que Vão

# 418


este corredor cheira à farmácia da vila onde contavam que dantes os lobos junto à escola no inverno, percebiam-se as marcas no chão e restos de vitelo iguais aos dele depois da cirurgia amanhã, uma interna espreitou da porta conforme a mãe antes de apagar a luz
- Quietinho

(...)

o número de criaturas, senhores, em que a mãe se tornava ao ir-se embora e nenhuma com ele ajudando-o a salvar-se da noite


António Lobo Antunes - Sôbolos Rios Que Vão

# 417


não estava no hospital em março, à chuva, estava em agosto na vila, se o mandassem fazer recados trocava de passeio antes de alcançar a moradia com a dona Lucrécia na cadeira de inválida ao alto dos degraus a acenar-lhe a bengala
- Aproxima-te rapaz
e ele sem ninguém que o protegesse tal como sem ninguém que o protegesse agora, a dona Lucrécia à espera no centro da enfermaria para onde o levavam

António Lobo Antunes - Sôbolos Rios Que Vão

# 416


o avô dobrou o jornal no sofá e nem o olhou sequer, quis pedir
- Não consegue fazer nada por mim?
e o mais que podia esperar era a concha da mão na orelha
- O quê?
e sobrancelhas juntas no sentido de ninguém
- Que disse ele?
de forma que o pássaro do seu medo continuava aos círculos, olha as raízes dos pés e os dedos que apertam o lençol, os pobres, aqueles que esperam o elevador deixaram a maçã entrar primeiro, fitaram a maca por um momento e esqueceram-se, achou impossível que não se recordassem dele

António Lobo Antunes - Sôbolos Rios Que Vão

# 415


a avó que morreu há tantos anos ali viva com ele, o avô defunto há mais tempo a ler o jornal com o seu aparelho de surdo, o silêncio do avô alarmou-o fazendo com que o ouriço se lhe dilatasse nas tripas arranhando, doendo, coloco-o numa placa de granito, bato com o martelo e a doença esmagada, alguém que não distinguia empurrava-lhe a maca corredor adiante, notava a chuva, caras, letreiros, a governanta do senhor vigário no alpendre enquanto pensava
- É o meu esquife que empurram

António Lobo Antunes - Sôbolos Rios Que Vão

# 414


Da janela do hospital em Lisboa não eram as pessoas que entravam nem os automóveis entre as árvores nem uma ambulância que via, era o comboio a seguir aos pinheiros, casas, mais pinheiros e a serra ao fundo com o nevoeiro afastando-a dele, era o pássaro do seu medo sem galho onde poisar a tremer os lábios das asas, o ouriço de um castanheiro dantes à entrada do quintal e hoje no interior de si a que o médico chamava cancro aumentando em silêncio, assim que o médico lhe chamou cancro os sinos da igreja começaram o dobre é um cortejo alongou-se na direcção do cemitério com a urna aberta e uma criança dentro

António Lobo Antunes - Sôbolos Rios Que Vão

domingo, 25 de março de 2018

# 413


Entretanto, até ao final do internamento ia sabendo notícias do Outro que eu fora pelas descrições de quem o tinha visto na névoa antiga, e então nomes, pessoas e casos voltaram a povoar-me a memória.


José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 412


Num golpe repentino tinha perdido a inteireza da fala, no mesmo golpe tinha perdido os valores da grafia e ficara analfabeto de mim e da vida. Subitamente também, retomara tudo isso mas foi preciso algum tempo para começar a ter consciência de tamanha felicidade.


José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 411


o corredor das portas abertas e das camas a meio sono deixou de ser a estrada sem limites que eu percorria nos tempos cegos. A sua brancura já não é de vazio e solidão nem de extensões de luz fria. Pelo contrário, é quase íntima, hospitalar, e, ponto importante, exibe doentes a desfilarem em parada de toilettes. Três ou quatro, não mais, e todos os dias os mesmos.
Olho-os. Passam por mim roupões acabados de estrear, chinelas de aconchegar sossegos; à saída duma porta, um infeliz de perna arrastada compõe o seu burguês casaco de quarto com alamares; mais adiante outro internado avança em robe com monograma e lenço de seda ao pescoço mas por razões que só a ele dizem respeito calça luvas de lã grosseiríssima; outro ainda, um tipo enorme de cabelo grisalho, mostra-se de peito aberto num quimono de judoca e calções colados à coxa, exibindo umas pernas ilustradas por adesivos que cobrem enxertos de artérias ou algo assim. Brilhos de presença e uniforme: desejo de sobreposição ao anonimato ou à marginalização para que nos empurra a doença?

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 410



No escuro, junto a dois homens adormecidos, tento ver para trás do meridiano da morte que acabei de dobrar esta manhã mas só encontro névoa luminosa.


José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 409


Alguém me dá os parabéns como se tivesse sido eu o autor deste triunfo e um psiquiatra meu amigo expõe o fundamental da recuperação surpreendente, surpreendente, repetiu ele, que me tinha acontecido.

(...)

Sinto-me tomado de gratidão. Isto de alguém se recomeçar assim depois de nulo é algo que deslumbra e ultrapassa.


José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 408


Um tanto ao acaso, avancei para o lavatório e ao aproximar-me reconheci-me no espelho. Eu. Eu saído da névoa, a ir ao encontro de mim na superfície dum vidro emoldurado e com a sensação ou com a certeza (ah sim, com a certeza, a mais que certeza) de que encontrará a memória. Incrível, a memória tinha reaparecido, o coágulo de sangue, esse selo que me estrangulara o cérebro, diluira-se no segredo do corpo e eis-me livre, renascido, diante de dois estranhos que não paravam de improvisar malícias entre si.

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 407


naquele quarto estavam dois candidatos à morte no maior dos carnavais. Dois passarões arruinados, pelo menos quanto ao aspecto. E eu, no meio de tanto riso, descobri (sem espanto, sem assombro, custa a crer) que acabara de me libertar duma doença mais que maldita, duma cegueira ou dum apagamento por onde andara sem norte e sem dias e que numa viragem sem aviso pessoas e luz, palavras e matéria, tudo tinha voltado à realidade. Existência palpável, o mundo deixara de ser anónimo.

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

sexta-feira, 23 de março de 2018

# 406


Até que certa manhã acordo em claridade aberta com gargalhadas a crepitarem à minha volta. Dum momento para o outro, o sentido de presença. E tudo concreto, tudo vivo.

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 405


Por cima de uma porta não sei onde havia um letreiro que me obrigava a um soletrar intrigado (...) Aquilo parecia-me uma grafia cirílica. Alfabeto eslavo?
Cada vez que passava lá com a Edite apontava-o sem mais nada e ela, já sem levantar os olhos, respondia BANHOS. Então sim, eu conseguia ler e reconhecia a palavra.
(...)
de tanto o estudar a sós e de o saber impossível o letreiro fez com que me interrogasse
sem exactidão de consciência é certo sem sobressalto
mas a interrogar-me
se não estaria a caminhar para a loucura.
Inacreditável. Eu, o Outro de mim, em viagem de passos perdidos e a interrogar-me se não estaria a caminhar para a loucura. E o caso é que, desconcertante ou não, a pergunta aconteceu. E para maior surpresa, não a esqueci. Loucura, caminho para a loucura, a questão chegou-me com uma insistência passageira mas no estado em que me encontrava o que seria para mim a loucura?

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 404


Passos. Os passos dele: perdidos. Para a frente e para trás, perdidos.


José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 403


Corredor para a frente, corredor para trás, o Outro que se desdobrou de mim comporta-se naquele planeta como um figurante gratuito que o destino acrescentou à paisagem. Continuo a recordá-lo
não tem hora nem lugar é a impressão que dá
uma afabilidade incolor no trato com os médicos e com as enfermeiras que o acompanham
e calmo sempre calmo praticamente sem palavras mas de quando em quando com a luz discreta de um meio sorriso para manifestar presença ou como uma deferência para com as pessoas com quem se cruza

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

domingo, 18 de março de 2018

# 402


as palavras que me chegavam vinham cegas. Sombras não havia nem podia haver numa claridade tão absorvente
(...)
não havia sombras não podia haver a não ser a do Outro que andava por lá o Outro que afinal não era mais do que uma sombra saída de algures de mim e a deslocar-se por si só não se sabe em que direcção nem com que objectivo
uma sombra branca corrida no branco
como foi que desse apagamento consegui reter alguma luzinha a brilhar até agora é coisa que ainda estou para entender mas retive retive mesmo? retive -
-melhor assim.
Verdade, melhor assim.
Paredes mansas, as tais paredes em alvura-pérola; por entre elas, os Söns, as figuras, o tempo, tudo num deslizar suave, sem densidade. Eu, pessoa de coisíssima nenhuma, cumpria as tardes de hospital num vaguear inocente.

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 401


Andava por ali, transposto para qualquer Alguém de mim num território satélite sem vida. Ainda que árida, a atmosfera era leve e luminosa e eu transitava pelas pessoas com um longo olhar sem rumo. Um animal a planar dentro duma redoma de vidro, é como me imagino naquela altura.

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 400


a desmemória não só o isolou da realidade objectiva como o destituiu, pode dizer-se, de sentimentos. Perdeu os estímulos de aproximação porque, sem a consciência da identidade que nos posiciona e nos define num framework de experiências e de valores, ninguém pode ser sensível à valia humana do semelhante. As suas virtudes ou os seus males só podem ser reconhecidos como significantes sentimentais em contraponto com a consciência da nossa identidade, isto é, com a tradução da comunicação que praticamos com a sociedade e com a nossa memória cultural. A ele tal coisa estava-lhe vedada, memória onde tu já ias. Daí a total indiferença em que navegava à tona das comoções e dos afectos, uma indiferença extrema que, sucedesse o que sucedesse, não o levava a perturbar nem ao de leve a disciplina ambiente. Na verdade, não sabia de todo onde se encontrava, a razão era essa.

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 399


Está à mercê de um coágulo que lhe trava a circulação do cérebro e anuncia um fim assustador mas ele desconhece isso, não pressente sequer. Está distante, está longe.

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 398



Durante a travessia das trevas brancas os diálogos com a Edite foram em grande parte uma busca de referências, um inquérito em total inconsciência na tentativa de se recapitular para voltar a ser um indivíduo com passado.

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 397


Os nomes. A preocupação de se reconhecer vivo, identificando-se pela identificação dos outros.

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 396


Sem nome e sem assinatura este que eu sou entre paredes dum hospital encontra-se numa paisagem anônima com gente anónima (o pessoal, os visitantes). Sem nome, vejam só. E contudo, "os nomes penetram-nos até aos ossos", afirmava Hemingway, esse viajante das mortes, em The Garden of Eden. 

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 395


Assumir a observação que pressupõe a ironia com a captação de sinais que ela requer não me parece fácil nas condições em que o meu Outro divagava. No entanto, muito para com ele e para comigo, houve pelo menos uma vez em que essa intenção teve lugar. Com alguma clareza - ou quase - e de tal modo que ainda hoje tenho como certo que mesmo um farrapo de indivíduo a despojar-se de memória (e portanto de imaginação) podem despontar por vezes fragmentos de ironia como fragmentos culturais, se assim lhes é possível chamar, que são resíduos do passado que ele apagou.
Será uma ironia coitada, não digo que não, mas de qualquer modo uma ironia. Um esforço de resposta muito para ele, muito para se compensar da situação de desvantagem em que se pressente. Um esbracejar do seu lado crítico, direi agora, um esbracejar. Um iludir o caos da irreflexão.
A prova dum impulso de afirmação deste tipo está na minha resposta ao exercício que um dia me propôs a neurologista que dirigia o meu tratamento ("Onze menos nove quantos são?") apresentando-lhe a primeira solução - engenhosa, pretendia eu - que me veio à cabeça: "Nada, senhora doutora. Qualquer coisa noves fora é nada.""

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 394


Se não o entendiam quando perguntava esquecia e passava adiante (remetia-se ao seu horizonte descampado). Mas quando era perguntado (nos exames iniciais da memória, é daí que me vem essa lembrança) entendia ou intuía que o estavam a experimentar em perspicácias ingénuas e com o seu quê de ridículo. Eram um estendal de desperdícios mais que vistos e sabidos, aqueles testes. Um jogo de faz-de-conta frustrado logo à partida, pensaria ele naquela altura e quem sabe se não sorriria tristemente por dentro. No fundo, essa atitude não era mais que a costumada desconfiança do doente em terreno de risco e de valores desconhecidos, a sempre prevenção contra a subestima ou a humilhação ao julgar-se avaliado por um teste primaríssimo em que colaborava, que remédio, com uma complacência resignada e até com uma sombra de ironia.

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 393


Ele percebe que o estão a investigar, por mais anulado que se encontre não se considera tão à margem como isso. Percebe, não tenho dúvida (recordo essa minha reacção no primeiro interrogatório) mas o que ele ignora é que já não identifica os objectos que lhe apresentam: um lenço, um anel, a moeda tirada ao acaso do bolso da bata, na prática objectos mais que simples da circulação comum, e principalmente relógios, relógios de pulso, os ponteiros e a leitura das horas. Pois, relógios.
O Outro de mim naturalmente que os conhece como peças, instrumentos, sem interior, sem razão, mas eu diria que só de vista porque os isolara de referências. Exactamente como lhe acontecia com as pessoas que outrora lhe tinham sido mais próximas.

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 392


Deixaram-no atrás de uma janela sem paisagem, em tempo velado, oco.

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 391


Deve ser uma abstracção nebulosa estar-se assim, numa ilha de náufragos, preso ao soro que nos chega por um fio ligado a uma hipótese de vida. Três náufragos ao todo: não esquecer que naquele quarto há ainda dois vultos tão nulos que os torna como ausentes. Insisto nisto porque aos olhos dele essas criaturas devem ser duas sombras, pouco mais. Duas sombras espalmadas em dois leitos de hospital, a observá-lo para o decifrarem, saber de quem se trata, qual o seu porquê e o seu rumo.

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 390


no quarto que lhe tinham destinado havia dois vultos a espiá-lo em duas camas. Viam-no também sob lençóis mas de rosto ao alto e a sorrir. A sorrir? Seria um traço pálido na palidez geral que se supôs dirigido à enfermeira que o estava a ligar ao soro, embora não a olhasse sequer. Ou um sorriso para com ele e mais ninguém, outra hipótese. De qualquer maneira, estava imóvel e a sorrir, imagine-se. Assim o viam os dois doentes com quem ele ia ficar e assim o estou eu a descrever, passados dois anos sobre essa hora: branco, branco, em luz gelada e com a mulher à cabeceira a segurar-lhe a mão. Preso a ela mas todo voltado para a distância.
Assim, também, o foi encontrar uma jovem médica que o veio observar com as primeiras perguntas no tom de quem vem com recado pensado.
Perguntas a aviar, é bom que se diga, pelo menos foi o que lhe pareceu a ele uma abordagem daquelas, e como tal, com respostas prontas é que a devia despachar. Estropiavas ou não, respostas prontas e o rosto eternamente apontado para uma vastidão qualquer.
Seria realmente uma vastidão, um espaço ermo, para onde ele olhava? Pouco importa. Horizonte, interrogação ou nada, era nessa direcção que ele estava a responder ao exame e infelizmente com o descaso e a irresponsabilidade que eram de prever, parecia anotar a médica pela maneira de o escutar, pelo insólito dos desacertos com que ele correspondia ao diagnóstico que lhe tinha sido atribuído, confirmava a médica com o silêncio do olhar, claro, tudo certo, tudo conforme, "agora", despediu-se ela, "o que é preciso é pôr-se bom depressa para voltar a escrever. De acordo?"
Escrever?
O que restaria de mim no homem que ficou para ali estendido à espera de coisa nenhuma?


José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 389



O relatório neurológico foi terminante: acidente vascular cerebral de gravidade muito acentuada, um coágulo de sangue que tinha subido (do coração?) até à zona nobre do cérebro, bloqueando duramente a artéria. Não era um problema hemorrágico, antes fosse, e por isso não havia o recurso à cirurgia com largas perspectivas de solução, explicou à Edite um especialista do Serviço de Neurologia. Assim, acrescentou ele, o caso apresentava-se bastante difícil, um caso de isquémia com recuperação lenta e frequentemente incompleta. Do ponto de vista motor, nada que justificasse preocupações, o doente bastava-se a si próprio. Mas o centro da fala e da escrita estava profundamente afectado e podia conduzir a uma sobrevivência em incomunicabilidade total.
Incomunicabilidade, pois. Incomunicabilidade total. Nem voz, nem escrita e nem leitura tão-pouco.
Morte cerebral, foi com esta expressão que a Agência Lusa passou a notícia à imprensa para o outro lado dos muros do Hospital de Santa Maria. Morte branca, aponto eu ao alto desta página em que estou a reconstruir passo a passo esse Outro que, de mão na mão com a Edite, se encaminha para o quarto onde vai ser internado.
Vai sem ver, percebe-se. Vai, foi. Seguiu. E quando lá chegou não sei se já estava entregue por inteiro à sem-vontade que o alheava do que acontecia nele e à volta dele, não sei, não faço ideia.

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

sábado, 17 de março de 2018

# 388


Desse momento em diante vi-o, de corredor em corredor, a ser conduzido aos puzzles da tecnologia clínica, chapa a chapa, registo a registo, análises, electrocardiografias, exames da fala é da escrita, um TAC., uma inspecção às carótidas, mas o que é que eu estou a fazer aqui, perguntava ele quando o deixavam sozinho com a mulher.
Se nessa altura ainda falava com clareza ou se já tinha começado a desmantelar as palavras com o silabar consonântico que toda a gente fingia ignorar, não sei, não posso dizer. Mas por intuição ou pelo que quer que fosse ele devia ter alguma percepção dessa afasia porque muitas vezes cortava a frase ou parava de se exprimir, fazendo um gesto de desistência com um sorriso de resignação. Deixem, não vale a pena, era o que aquilo significava. Dava a ideia de que por enquanto sabia o que pretendia comunicar mas que já não comandava as palavras.
Continuo a segui-lo. A princípio houve uma ou outra situação em que nos confundimos e fomos um só. Situações raríssimas, devo acrescentar, breves clarões de consciência. Mas em menos de nada já ele se tinha perdido de mim e ia hospital fora a arrastar uma névoa.

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 387


Ouvir e perceber enquanto ouvia mas apagar prontamente, era o traçado em que ele se movia. Ouvir e apagar logo-logo. Apagar. E ver, ver também contava. Ver pessoas (figuras) através dum vidro mudo e perdê-las acto contínuo. Tudo sem angústia, como quem preenchesse o tempo numa serenidade terminal. Como quem, na desertificação que o invadia, fosse avançando para a morte cerebral num cenário de contornos indiferentes.

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 386


Que eu saiba, ele ao princípio sabia-se doente. Ou teria uma percepção limiar da impossibilidade de se conjugar com os outros, uma impossibilidade com a qual convivia numa aceitação natural.

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 385


Para ele, agora ou ontem tudo era outrora, mundo alheio ou como tal. E desinteresse. O constante e desinteresse do homem desabitado de pessoas e de lugares, de tempo e de sentimentos.

José Cardoso Pires. - De Profundis, Valsa Lenta

# 384


Sem memória esvai-se o presente que simultaneamente já é passado morto. Perde-se a vida anterior. E a interior, bem entendido, porque sem referências do passado morrem os afectos e os laços sentimentais. E a noção do tempo que relaciona as imagens do passado e que lhes dá a luz e o tom que as datam e as tornam significantes, também isso. Verdade, também isso se perde porque a memória, aprendi por mim, é indispensável para que o tempo não só possa ser medido como sentido.

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 383


A partir de então tudo o que sei é que me pus ao espelho da casa de banho a barbear-me com a passividade de quem está a barbear um ausente - e foi ali.
Sim, foi ali. Tanto quanto é possível localizar-se uma fracção mais que secreta de vida, foi naquele lugar e naquele instante que eu, frente a frente com a minha imagem no espelho mas já desligado dela, me transfiri para um Outro sem nome e sem memória e por conseguinte incapaz da menor relação passado-presente, de imagem-objecto, do eu com outro alguém ou do real com a visão que o abstracto contém.

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 382


Espantoso como bruscamente o meu eu se transformou ali noutro alguém, noutro personagem menos imediato e menos concreto.
Nesta introdução à perda de identidade que um transtorno do cérebro tinha acabado de desencadear, o que me parece desde logo implacável e irreversível é a precisão com que em tão rápido espaço de tempo fui desapossado das minhas relações com o mundo e comigo próprio. Como se acabasse de dar início a um processo de despersonalização, eu tinha-me transferido para um sujeito na terceira pessoa

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

# 381


Acho que dei os bons-dias e que, embora calmo, trazia uma palidez de cera. Foi numa manhã cinzenta que nunca mais esquecerei, as pessoas a falarem não sei de quê e eu a correr a sala com o olhar, o chão, as paredes, o enorme plátano por trás da varanda. Parei na chávena de chá e fiquei. Sinto-me mal, nunca me senti assim, murmurei numa fria tranquilidade.
Silêncio brusco. Eu e a chávena debaixo dos meus olhos. De repente viro-me para a minha mulher: "Como é que tu te chamas?"

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

sábado, 6 de janeiro de 2018

# 380


procuro o maço de cigarros na carteira, fumar mata, em letras enormes, de um lado, do outro, fumar causa o envelhecimento da pele, se por um acaso não morrer, se me der para ser eterna, tenho direito a uma indemnização já que me asseguraram que fumar mata, desde quando é que todas as coisas desataram a falar, a estrada, conduza com prudência, respeite a margem de segurança, se conduzir não beba, imagino qualquer dia o hall de um prédio, se tiver uma vizinha boazona por favor não a apalpe, ou, apalpar vizinhas depende da autorização prévia do condomínio que reserva o direito de, outro aviso, quando pisar merda de cão na rua não limpe os sapatos no capacho do vizinho, procure antes os capachos de outros prédios, acendo o cigarro, hoje à tarde o banco, subscreva um plano poupança habitação, um plano poupança reforma, qualquer dia o banco, subscreva um plano infalível de assalto à mão armada, pode ainda subscrever os complementos especial perversidade, ou fuga para país tropical, a farmácia onde ontem fui comprar pingos para o nariz, já não se usa morrer de amor, use preservativo, vigie o seu colesterol, meça a sua tensão, beba um litro e meio de água por dia, evite as gorduras, faça exercício, a farmácia e o rol de conselhos, não acho bem que as estradas, os bancos, as farmácias, as roupas, tenham desatado a falar, os disparates dos falantes tradicionais chegavam.


Dulce Maria Cardoso - Os meus Sentimentos

sábado, 19 de agosto de 2017

# 379


mas no entanto, nós os dois desenhamos uma figura (...) tu és um ponto em qualquer parte e eu noutra, ambos em movimento (...) e pouco a pouco (...) vamos construindo uma figura absurda, desenhando com os nossos movimentos uma figura idêntica à que duas moscas fazem quando voam numa sala, daqui para ali, um movimento browniano é exactamente isso, compreendes agora, um ângulo recto, uma linha que sobe, daqui para ali, de trás para a frente, para cima, para baixo, espasmodicamente, travando no ar e arrancando noutra direcção no mesmo instante, e esses movimentos vão formando um desenho, uma figura, qualquer coisa de inexistente como tu e como eu, como dois pontos perdidos (...) que vão de cá para lá, de lá para cá, fazendo o seu desenho, dançando para ninguém, nem sequer para eles mesmos, uma figura interminável e sem sentido.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 378


Onde é que tu estás, onde estaremos nós a partir de hoje, dois pontos de um universo inexplicável, próximos ou afastados um do outro, dois pontos que criam uma linha, que se afastam e aproximam de forma arbitrária.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 377


deixando-me cair no orgulho imbecil do intelectual que se crê preparado para compreender

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)



# 376


o molde oco sou eu

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 375


eras o esboço daquilo que poderias ter sido debaixo de outras estrelas

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 374


Esteja onde estiver, o seu cabelo arde como uma torre que me queima a partir de longe, desfazendo-me em pedaços, apenas com a sua ausência.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 373


Nunca me propus atingir a felicidade

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 372


o mundo não me importa se não tiver forças para continuar a escolher algo verdadeiro, se uma pessoa se organiza como uma gaveta da cómoda

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 371


é preciso lutar para viver, é a lei (...) e é sujo e amargo

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 370



Para que é que vamos continuar a enganar-nos? Não se pode viver perto de um marionetista de sombras (...) Eu, com os meus cadeados e as minhas chaves de ar, eu que escrevo com o fumo. (...) Não existem substâncias mais letais do que as que se colam a qualquer coisa, que se respiram sem o saber, seja nas palavras, no amor ou na amizade. Já vai sendo tempo de me deixarem em paz, sozinho e em paz.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 369



- Há muito tempo que não tínhamos uma boa conversa metafísica, hã? Já não se fala dessa forma estilizada entre amigos, passa-se por snobe.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 368



 - Tu (...) tens uma ideia imperial no mais profundo de ti. O teu direito de cidade? Um domínio de cidade. O teu ressentimento vem de uma ambição mal curada. (....) O que eu não compreendo é a tua técnica. A ambição, porque não? És suficientemente extraordinário em alguns aspectos. No entanto, tudo o que te vi fazer até agora tem sido exactamente o oposto daquilo que outros ambiciosos teriam feito (...) Fazes exactamente o oposto, mas sem renunciar â ambição. E é isso que eu não consigo entender.
- (...) Digamos que isso a que tu chamas ambição não pode dar frutos senão pela renúncia (...) Não é bem isso, mas o que eu gostava de dizer é justamente indizível. (...) Não renuncio a nada, simplesmente faço o que posso para que as coisas renunciem a mim.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 367



- (...) Desde que te conheço que não fazes mais nada senão procurar, mas tenho a sensação que já tens no teu bolso aquilo de que andas à procura.
- Os místicos falaram disso, ainda que sem mencionar os bolsos.
- E entretanto vais destruindo a vida de uma quantidade de gente.
-  Elas consentem, meu velho, consentem. Tudo o que lhes falta é um empurrãozinho, eu passo e já está. Sem qualquer má intenção.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)



# 366



Era como se estivesse a especializar-se em causas perdidas. Primeiro perdê-las, e depois ir a correr atrás delas como um louco.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 365



- O absurdo é que não pareça um absurdo

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 364


O que te dá força é que para ti não há futuro, como é lógico para a maioria dos agnósticos. Estás sempre vivo, no presente. Todas as coisas se ordenam de forma satisfatória, como num quadro de Van Eyck. Mas se algum dia te acontecesse essa coisa horrível que é não ter fé e ao mesmo tempo projectares-te em direcção à morte, em direcção ao escândalo dos escândalos, o teu espelho ficaria bastante embaciado.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 363



De todos os nossos sentimentos, é provável que o único que não seja verdadeiramente nosso seja a esperança. A esperança pertence à vida, é a própria vida a defender-se


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 362


A vida vive-se por si mesma, quer se goste dela ou não.


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 361



E essas crises  que a maioria das pessoas considera escandalosas e absurdas (...) servem para mostrar o verdadeiro absurdo, o de um mundo ordenado e a viver em calma.


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 360



O absurdo é acreditar que podemos apreender a totalidade daquilo que somos neste ou em qualquer outro momento e intuir isso como algo coerente, algo aceitável (...).
Cada vez que entramos em crise o absurdo é total (...) a dialéctica só consegue arrumar a casa nos momentos de acalmia. (...) Ao contrário do que seria de esperar, agimos sempre por impulso no ponto culminante de uma crise, acabando por fazer o disparate mais inesperado. (...) A razão serve-nos apenas para dissecar a realidade com calma ou para analisar as suas futuras tormentas, mas jamais resolve uma crise.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 359



- Sem linguagem não há homem. Sem história não há homem.
- E sem crime não há assassino. Não tens nenhuma prova de que o homem não pudesse ter sido diferente.
- Não nos correu assim tão mal (...)
- Em que ponto de comparação é que te baseias para dizer que nos correu bem? Porque é que tivemos de inventar o Éden e viver mergulhados na nostalgia do paraíso perdido?


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 358



Fiquemo-nos por aqilo a que Ronald chama comovedoramente a realidade e que acredita ser apenas uma.

(...)

Tu pensas que há uma realidade postulável porque tu e eu estamos aqui nesta noite (...) Tenho a sensação que isso te dá uma grande segurança ontológica: sentes-te seguro de ti mesmo, bem dentro de ti e daquilo que te rodeia. Mas se tivesses o dom da ubiquidade e pudesses assistir a essa mesma realidade a partir de mim e de Babs ao mesmo tempo, compreendes, se tu pudesses ver esta sala no mesmo momento a partir do meu lugar, com tudo o que eu fui e sou, e a partir de Babs, com tudo o que ela foi e é, talvez compreendesses que o teu egocentrismo de trazer por casa não te oferece qualquer realidade válida. Ela oferece-te apenas uma crença baseada no terror , uma necessidade de afirmar aquilo que te rodeia para não caíres dentro do buraco e acabares por sair pelo outro lado, vá-se lá saber onde.


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

# 357


E houve essa noite em Esmirna, onde obriguei o objecto amado a suportar a presença de uma cortesã. A criança fazia do amor uma ideia que se mantinha austera, porque era exclusiva: o seu desgosto foi até à náusea. Depois habituou-se. Aquelas vãs tentativas explicavam-se bastante pelo gosto da devassidão; misturava-se a isso a esperança de inventar uma intimidade nova em que o companheiro de prazer não deixaria de ser o bem-amado e o amigo: o desejo de instruír o outro, de fazer passar a sua juventude por experiências que haviam sido as da minha; e talvez, mais inconfessada, a intenção de o rebaixar pouco a pouco ao plano das delícias vulgares que não obrigam a qualquer compromisso.
Havia angústia naquela minha necessidade de ferir aquela ternura desconfiada que ameaçava embaraçar a minha vida.

Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano

# 356



Não amava menos, amava mais. Mas o peso do amor, como o de um braço ternamente pousado sobre um peito, tornava-se pouco a pouco, mais difícil de suportar.

Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano
 

# 355



Não havia esperado a presença de Antínoo para me sentir deus.

Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

# 354


Um ser jovem desligou-se de mim no momento em que os nossos laços teriam começado a pesar-me; outras rotinas sensuais, ou as mesmas sob outras formas, ter-se-iam estabelecido na sua sua vida; o futuro incluiria um casamento nem pior nem melhor que tantos outros, um posto na administração provincial, a gestão de um domínio rural na Bitinia; noutros casos, a inércia, a vida da corte continuada em qualquer situação subalterna, vendo as coisas pelo pior, uma dessas carreiras de favoritos descaídos que passam a ser confidentes ou alciviteiros. A prudência, se compreendo alguma coisa disso, consiste em não ignorar nada desses riscos, que são a própria vida, tendo apenas o cuidado de se esforçar por afastar os piores. Mas nem aquela criança nem eu éramos prudentes.

Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano


# 353



Ofereço aqui aos moralistas uma ocasião fácil de triunfar de mim. Os meus censores preparam-se para apontar na minha infelicidade as consequências de um desregramento, o resultado de um excesso: é-me tanto mais difícil contradizê-los quanto é certo que não vejo em que consiste o desregramento nem onde está o excesso. Esforço-me por reduzir o meu crime, se crime houve, a proporções justas: digo a mim mesmo que o suicidio não é raro e que é comum morrer aos vinte anos. A morte de Antínoo só é um problema e uma catástrofe para mim. Pode ser que o desastre tenha sido inseparável de uma alegria demasiado, de um acréscimo de experiência,  de que eu não teria consentido em privar-me nem privar o meu companheiro de perigo. Os meus próprios remorsos tornaram-se pouco a pouco uma forma amarga de posse, uma maneira de me convencer de que fui até ao fim o triste senhor do seu destino. Mas não ignoro que é preciso contar com as decisões desse belo desconhecido que, apesar de tudo, continua a ser para nós cada ente que amamos. Assumindo toda a culpa, reduzo esta jovem figura às proporções de uma estátua de cera que eu teria modelado e depois esmagado entre as minhas mãos. Não tenho o direito de depreciar a singular obra-prima que foi a sua partida; devo deixar a essa criança o mérito da sua própria morte.
Evidentemente que não incrimino a preferência sensual, demasiado vulgar, que determinava, em amor, a minha escolha. Atravessaram muitas vezes a minha vida paixões semelhantes; esses frequentes amores não me haviam custado, até então, mais que um mínimo de juramentos, de mentiras e de males. A minha breve predilecção por Lúcio levara-me apenas a algumas loucuras reparáveis. Nada impedia que sucedesse o mesmo com esta suprema ternura; nada, senão precisamente a qualidade única que a distinguia das outras. O hábito ter-nos-ia conduzido a esse fim sem glória, mas também sem desastre, que a vida oferece a todos os que não recusam o seu doce embotamento pela saciedade. Teria visto a paixão transformar-se em amizade, como querem os moralistas, ou em indiferença, o que é mais frequente.

Marguerite Yourcenar Memórias de Adriano

# 352



Pouco a pouco a luz mudou. Há mais de dois anos a passagem do tempo marcava-se pelo progresso de uma juventude que se forma, se vai dourando, sobe ao seu zénite: a voz grave que se habituou a gritar ordens aos pilotos e aos chefes das caçadas; a passada mais longa do corredor; as pernas do cavaleiro dominando mais destramente a montada; o estudante que, em Claudiópolis, apreendera de cor fragmentos de Homero, apaixonava-se pela poesia voluptuosa e sábia, entusiasmava-se com certas passagens de Platão. O meu jovem pastor tornava-se um jovem príncipe. Já não era a criança zelosa que, nas paragens, saltava do cavalo para me oferecer água das fontes recolhida nas suas mãos: o doador sabia agora o imenso valor dos seus dons

Marguerite Yourcenar Memórias de Adriano

# 351


Teria podido, por meio do divórcio, desembaraçar-me dessa mulher que não amava; homem privado, não teria hesitado em fazê-lo. Mas ela importunava-me muito pouco, e coisa alguma, na sua conduta, justificava um insulto público. Jovem esposa, melindrava-se com os meus afastamentos (...) Assistia agora, sem parecer aperceber-se disso, às manifestações de uma paixão que se anunciava duradoura. Como muitas mulheres pouco sensíveis ao amor, compreendia mal o poder; essa ignorância excluía ao mesmo tempo a indulgência e o ciúme. Inquietar-se-ia apenas se os seus títulos ou a sua segurança estivessem ameaçados, o que não era o caso. Não lhe restava nada daquela graça adolescente que outrora me havia brevemente interessado: aquela espanhola prematuramente envelhecida era grave e dura. Dava-me satisfação que a sua frieza a tivesse impedido de ter amante; agradava-me que ela soubesse usar com dignidade os seus véus de matrona que eram quase véus de viúva. Gostava muito que figurasse nas moedas romanas um perfil de imperatriz tendo no reverso uma inscrição, umas vezes ao Pudor, outras à Tranquilidade. Acontecia-me pensar naquele casamento fictício que, nas festas de Elêusis, se realizou entre a grande sacerdotisa e o hierofante, casamento que não é uma união, nem mesmo um contacto, mas que é um rito e, como tal, sagrado.

Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

# 350



Estações alciónicas, solstício dos meus dias...Longe de embelezar, à distância, a minha felicidade, devo lutar para lhe não turvar a imagem, a sua própria recordação é hoje demasiado forte para mim. Mais sincero que a maioria dos homens, confesso sem rodeios as causas secretas dessa felicidade: aquela calma tão propícia aos trabalhos e às disciplinas parece-me um dos mais belos efeitos do amor. E espanto-me de que estas alegrias tão precárias, tão raramente perfeitas no decorrer da vida humana, sob qualquer aspecto além de que nós os tenhamos procurado e recebido, sejam consideradas com tanta desconfiança por pretendidos sábios, que eles receiem o seu hábito e excesso em vez de temer a sua falta é perda, que passem a tiranizar os sentidos um tempo que seria mais bem empregado a ordenar ou a embelezar a alma. Naquela época punha em fortalecer a minha felicidade, apreciá-la, e também em julgá-la, a atenção que sempre dispensara aos mais pequenos pormenores dos meus actos; e o que é a própria voluptuosidade senão um momento de atenção apaixonada do corpo? Toda a felicidade é uma obra-prima: o menor erro falseia-a, a menor hesitação altera-a, a menor deselegância desfeia-a, a menor estupidez embrutece-a. A minha não é responsável em coisa alguma por aquelas das minhas imprudências que mais tarde a quebraram. Julgo ainda que teria sido possível a um homem mais hábil que eu ser feliz até à morte.

Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano

# 349


Quando me volto de novo sobre esses anos julgo reencontrar a Idade de Ouro. Tudo era fácil: outrora os esforços eram compensados por uma satisfação quase divina. A viagem era um jogo: prazer regulado, conhecido, sabiamente preparado. O trabalho incessante não era mais do que uma forma de voluptuosidade. A minha vida, onde tudo chegava tarde, o poder, a felicidade também, adquria o esplendor do meio-dia pleno, o ensoalheiramento das horas da sesta em que tudo é banhado por uma atmosfera de ouro - os objectos do quarto e o corpo estendido ao nosso lado. A paixão culminada tem a sua inocência, quase tão frágil como qualquer outra: o resto da beleza humana passava à categoria de espectàculo, deixava de ser a caça de que eu tinha sido o caçador. Aquela aventura, começada vulgarmente, enriquecia mas simplificava também a minha vida: o futuro pouco importava; deixei de interrogar os oráculos, as estrelas passaram a ser apenas admiráreis desenhos na abóboda do céu. Nunca havia notado com tanta delícia a palidez da madrugada no horizonte das ilhas, a frescura das noites consagradas às ninfas é frequentemente visitaras pelas aves de passagem, o voo pesado das codornizes ao crepúsculo. Reli os poetas: alguns pareceram-me melhores que anteriormente, a maior parte, piores. Escrevi versos menos insuficientes que de costume.

Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano

quinta-feira, 27 de julho de 2017

# 348



o sono mais perfeito está quase forçosamente ligado ao amor: repouso meditado, reflectido em dois corpos.


Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano

sexta-feira, 21 de julho de 2017

# 347


O amador de beleza acaba por encontrá-la em toda a parte.


Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano

# 346


O desejo de conhecer exactamente as riquezas que cada amor nos traz, de o ver mudar, talvez de o ver envelhecer, concilia-se mal com a multiplicidade das conquistas

Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano

# 345



A técnica do grande sedutor exige, na passagem de um objecto a outro, uma facilidade, uma indiferença, que eu não tenho relativamente a eles

Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano

terça-feira, 11 de julho de 2017

# 344


Pensei várias vezes em elaborar um sistema de conhecimento humano baseado no erótico, uma teoria do contacto, em que o mistério e a dignidade de outrem consistiria precisamente em oferecer ao Eu esse ponto de apoio de um outro mundo. A voluptuosidade seria, nessa filosofia, uma forma mais completa, mas também mais especializada, dessa aproximação ao Outro, mais uma técnica posta ao serviço do conhecimento daquilo que não somos nós. Nos encontros, mesmo os menos sensuais, é ainda no contacto que a emoção se completa ou nasce (...) As próprias relações intelectuais ou aos mais neutras ocorrem através desse sistema de sinais do corpo

(...)

Com a maior parte dos seres, os mais ligeiros, os mais superficiais desses contactos bastam ao nosso desejo, ou mesmo já o excedem. Que eles insistam, se multipliquem em volta de uma única criatura até a cativar completamente; que cada parcela de um corpo assuma para nós tantas significações perturbantes como os traços de uma fisionomia; que um único ser, em vez de nos inspirar quando muito irritação, prazer ou aborrecimento, nos obsidie como uma música ou nos atormente como um problema; que ele passe da periferia do nosso universo ao seu centro, se nos torne, enfim, mais indispensável que nós próprios, e o espantoso prodígio realiza-se, no que eu vejo mais uma invasão da carne pelo espírito do que um simples jogo da carne.

Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano

# 343



Os cínicos e os moralistas estão de acordo quanto a colocar as voluptuosidades do amor entre os prazeres ditos grosseiros, entre o prazer de beber e o prazer de comer, declarando-os, contudo, visto que asseguram poder viver-se sem eles, menos indispensáveis que os outros. Dos moralistas espero tudo, mas espanta-me que o cínico se engane nesse ponto. Admitamos que uns e outros tenham medo dos seus demónios, quer lhes resistam, quer se lhes abandonem, e se esforcem por aviltar o seu prazer, a fim de lhe retirar o poder quase terrível, ao qual sucumbem, e ao seu estranho mistério, em que se sentem perdidos. Acreditaria nesta assimilação do amor às alegrias puramente físicas (supondo que existem) no dia em que visse um apreciador de bons petiscos soluçar de delícia diante do seu prato favorito, como um amante encostado a um ombro juvenil. De todos os nossos jogos é o único que pode perturbar a alma, o único também em que o jogador se abandona necessariamente ao delírio do corpo. Não é preciso que o bebedor abdique da sua razão, mas o amante que conserva a sua não obedece até ao fim ao seu deus. Em toda a parte a abstinência ou o excesso não aliciam senão o homem só: salvo no caso de Diógenes, cujas limitações e carácter de racional pessimista se evidenciam por si próprios, todo o procedimento sensual nos coloca em presença do Outro, nos implica nas exigências e nas servidões da escolha. Não conheço outra em que o homem se resolva por razões mais simples e inelutáveis, em que o objecto escolhido seja avaliado mais exactamente pelo seu peso bruto de delícias, em que o amador de verdades tenha mais possibilidades de julgar a criatura nua. A partir de um despojamento que se iguala ao da morte, de uma humildade que ultrapassa a da derrota e da prece, fico maravilhado ao ver renova-se sempre a complexidade das recusas, das responsabilidades, dos factores, das pobres confissões, das frágeis mentiras, dos compromissos apaixonados entre o meu prazer e o do Outro, tantos laços que é impossível quebrar e contudo tão depressa desfeitos. Este jogo misterioso que vai do amor de um corpo ao amor de uma pessoa pareceu-me suficientemente belo para lhe dedicar uma parte da minha vida. As palavras enganam, visto que esta - prazer - esconde realidades contraditórias, comporta ao mesmo tempo as noções de tepidez, doçura, intimidade de corpos, e as de violência, agonia e grito . A pequena frase de Possidónio sobre o atrito de duas parcelas de carne, que te vi copiar nos teus cadernos escolares com uma aplicação de menino ajuizado, não define o fenómeno do amor, assim como a corda que o dedo faz vibrar se não apercebe do milagre dos sons. Esta frase insulta menos a voluptuosidade que a própria carne - instrumento de músculos, de sangue e de epiderme, essa nuvem vermelha cujo relâmpago é a alma.
E confesso que a razão fica confundida perante o prodígio do amor, da estranha obsessão que faz que esta mesma carne, que tão pouco nos preocupa quando compõe o nosso próprio corpo, limitando-nos a lavá-la, a alimentá-la e, se possível, a impedi-la de sofrer, possa inspirar uma tal paixão de carícias simplesmente porque é animada por uma individualidade diferente da nossa e porque representa certos lineamentos de beleza sobre os quais, aliás, os melhores juízes não estão de acordo. Aqui, a lógica humana fica aquém, como nas revelações dos Mistérios. A tradição popular não se enganou ao ver sempre no amor uma forma de iniciação, um dos pontos em que o secreto e o sagrado se encontram. A experiência sensual compara-se ainda aos Mistérios, na medida em que a primeira aproximação dá ao não iniciado a impressão de um rito mais ou menos assustador, escandalosamente afastado das funções familiares de dormir, de beber e de comer, motivo de brincadeira, de vergonha ou de terror. Tanto como a dança das Ménades ou o delírio dos Coríbantes, o nosso amor arrasta-nos para um universo diferente, onde, noutros tempos, nos era interdito entrar e onde deixamos de nos orientar desde que o ardor se extingue ou que o prazer se desenlaça.


Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano

segunda-feira, 10 de julho de 2017

# 342



tu e eu somos dois seres absolutamente incomunicáveis entre si a não ser pelos sentidos e pela palavra, coisas das quais se deve desconfiar quando somos pessoas sérias.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 341


A verdade é que nós somos como uma comédia quando uma pessoa chega ao teatro no segundo acto. É tudo muito bonito, mas não se compreende nada

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 340



faço coisas que me tiram um pouco o mau gosto do vazio

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 339



o homem apenas parece seguro naqueles terrenos que o tocam profundamente: quando joga, quando conquista, quando constrói as suas várias carapaças históricas à base de ethos, quando acerta contas com o mistério central através de alguma revelação. E por cima e por baixo disso está a curiosa noção de que a ferramenta principal, o logos que nos arranca vertiginosamente da escala zoológica, é uma completa fraude, e o corolário inevitável é o refúgio no difuso e no balbuceio, a noite escura da alma, as visões estéticas e metafísicas

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 338


Pobre do amor que se alimenta do pensamento.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 337



Se falamos de amor, falamos de sexualidade. O contrário já não é bem assim. Mas parece-me que a sexualidade não é a mesma coisa que o sexo.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 336



Suponho que andamos à procura de qualquer coisa (...) mas somos enganados ou enganamo-nos quase sempre.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

quinta-feira, 29 de junho de 2017

# 335



infância perdida, próxima, tão próxima!


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 334



os peixes já não querem sair dos aquários, já quase nunca tocam o vidro com o nariz

(...)


Que maravilha que seria observar os peixes no seu aquário e de repente vê-los saltar para o ar livre, partirem como pombas. Uma esperança idiota, claro. Todos recuamos com o medo de esfregar o nariz em algo desagradável. Sobre o nariz como limite do mundo, tema de dissertação.


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 333



a repetição até ao infinito de uma ânsia de fuga


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 332



a desgraça é, digamos, mais tangível, quiçá porque é dela que nasce o desdobramento entre o sujeito e o objecto. Por isso é que se fixa tão bem na memória e se podem contar tão bem as catástrofes.

(...)

a felicidade pertence unicamente a uma pessoa, e a desgraça parece ser de todos.


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 331



começaria a recriminar-se (...) a desmontar a situação peça por peça até não restar senão o mesmo de sempre, um buraco por onde soprava o tempo, um contínuo impreciso sem limites definidos.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 330



"Só vivendo absurdamente é que um dia se poderia romper esse absurdo infinito"


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 329



"mas era necessário viver de outra maneira. E o que quer dizer viver de outra maneira? Talvez viver absurdamente para acabar com o absurdo, deixar-se cair em si mesmo com uma tal violência que a queda acabasse nos braços do outro. Sim, talvez o amor, mas a otherness dura-nos o que dura uma mulher, e além disso apenas no que a essa mulher diz respeito. No fundo não há otherness, apenas a agradável togetherness. É certo que já é qualquer coisa..." Amor, cerimónia ontológica, dadora de ser. Era por isso que lhe ocorria agora o que talvez lhe devesse ter ocorrido no princípio: sem se possuir a si mesmo não havia a possessão do outro, e quem é que se possuía verdadeiramente? Quem é que estava de regresso a si mesmo, da solidão absoluta que representa não contar sequer com a própria companhia, ter que enfiar-se numa sala de cinema, ou num prostíbulo, ou em casa de uns amigos, ou numa profissão absorvente, ou no casamento, para ao menos estar só-entre-os-demais? Era assim que, paradoxalmente, o cúmulo da solidão conduzia ao cúmulo do gregário, à grande ilusão da companhia alheia, ao homem só na sala dos espelhos e dos ecos. Porém, as pessoas como ele e tantos outros que se aceitavam a si mesmos (ou se rejeitavam, mas conheciam-se de perto) entravam no pior dos paradoxos, o de estar quiçá nos limites da alteridade e não poder atravessá-los.
A verdadeira alteridade feita de contactos delicados, de maravilhosos ajustes com o mundo, não se podia cumprir apenas a partir de uma parte; à mão estendida devia responder outra mão vinda de fora, do outro.


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 328



Não é tanto que estejamos sozinhos, isso sabe-se de sobra e ponto final. Estar só é em definitivo estar só dentro de um certo plano, no qual outras solidões poderiam comunicar connosco, se isso fosse possível.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 327



Ah, deixa-me entrar, deixa-me ver um dia como os teus olhos vêem...


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 326



mal estamos separados por umas horas e uns quarteirões e já o meu sofrimento se chama sofrimento e o meu amor se chama o meu amor...Cada vez sentirei menos e recordarei mais, mas o que é a memória senão a língua dos sentimentos, um dicionário de caras e dias e perfumes que reaparecem como os verbos e os adjectivos no discurso, antecipando-se com avidez à coisa em si, ao presente puro, entristecendo-nos ou ensinando-nos por substituição até que o próprio ser se torna substituto, a cara que olha para trás arregala os olhos, a verdadeira face apaga-se lentamente, tal como nas velhas fotografias, e Jano torna-se de repente qualquer um de nós.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 325



Com ela eu sentia crescer um ar novo, os símbolos fabulosos do final de tarde ou a forma como as coisas se desenhavam quando estávamos juntos.


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

domingo, 25 de junho de 2017

# 324



Mas o amor, essa palavra...

(...)

Meu amor, não te amo por ti, nem por mim, nem pelos dois juntos, não te amo porque o sangue me leve a amar-te, amo-te porque não és minha, porque estás do outro lado, de onde me convidas a saltar para ti e eu não posso, porque no mais fundo da possessão não estás em mim, não chego até ti, não passo para lá do teu corpo, do teu sorriso

(...)

uma ponte não se sustém apenas de um lado

(...)

deseja um amor-passaporte, um amor passa-montanhas, um amor-chave, um amor-revólver, um amor-que-lhe-ofereça-os-mil-olhos-de-Argos, a ubiquidade, o silêncio a partir do qual a música é possível, a raíz a partir da qual se poderia começar a tecer uma língua

(...)

Total parcial: quero-te. Total geral: amo-te

(...)

Aquilo a que muita gente chama amar consiste em escolher uma mulher e casar-se com ela. Escolhem-na, juro-te, eu vi-os fazerem-no. Como se se pudesse escolher no amor, como se o amor não fosse um raio que te parte os ossos e que te deixa petrificado no pátio.

(...)

Não se pode escolher Beatriz, não se pode escolher Julieta. Tu não escolhes a chuva que te vai ensopar até aos ossos quando sais de um concerto


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 323



Oh meu amor, sinto a tua falta, dóis-me na pele, na garganta, quando respiro é como se o vazio me entrasse no peito onde já não estás.


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 322



O que é que eu posso fazer? No meio da grande desordem continuo a ver-me como um cata-vento, e ao fim de tantas voltas há que marcar um Norte, um Sul. Chamar a alguém cata-vento demonstra falta de imaginação: depreendem-se as reviravoltas, mas não a intenção, a ponta da flecha que procura fixar-se e estabelecer-se no rio de vento.

(..)

eu ando por aí a vaguear, a dar-lhe voltas, à procura do Norte e do Sul, se é que os procuro. Se é que os procuro. Mas se não andasse à procura deles, porquê tudo isto?


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 321



há uma altura em que o natural soa espantosamente a falso, que a realidade dos vinte se acotovela com a realidade dos quarenta e em cada cotovelo há uma lâmina que nos corta as mangas do casaco.

(...)

Porquê esta sede de ubiquidade, esta luta contra o tempo?


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 320



a culpa não é de nenhum de nós. Não somos adultos (...) Essa é uma virtude que se paga caro. Depois de brincarem, as crianças puxam sempre os cabelos umas às outras.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 319



A ideia de me suicidar faz-me sempre bem


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 318



A questão da unidade preocupava-o por causa da facilidade com que parecia cair nas piores armadilhas.

(,,,)

tinha comprovado com (primeiro) surpresa e (depois) ironia que muitos tipos se instalavam confortavelmente numa alegada unidade pessoal que não passava de uma unidade linguística e de uma esclerose prematura do carácter. Essas pessoas urdiam um sistema de princípios jamais avaliado intimamente

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 317



a soma de todos os actos que define uma vida, parecia recusar-se a qualquer manifestação antes que a vida em si se acabasse

(...)

apenas os demais, os biógrafos, veriam a unidade

(...)

O problema estava em apreender (...) a unidade em plena pluralidade, que a unidade fosse como um vórtice de um turbilhão, e não a sedimentação de um mate deslavado e frio


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 316



respirava até não poder mais, sentia-se viver até ao delírio no próprio acto de contemplar a confusão que o rodeava, perguntando a si póprio se algo em tudo aquilo tinha algum sentido

(...)

podia ser que através da loucura se pudesse chegar a uma razão que não fosse essa razão da qual a falência é a loucura

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 315


Não estava bêbedo o suficiente para não sentir que tinha desfeito a sua casa, que dentro dela nada estava no sítio certo, mas que ao mesmo tempo - e era verdade, era maravilhosamente verdade - , pelo chão ou no tecto, por baixo da cama ou a flutuar numa bacia, havia estrelas e pedaços de eternidade, poemas como sóis e caras enormes de mulheres e de gatos onde ardia a fúria das suas espécies numa mistura de lixo e placas de jade, e na sua língua, onde as palavras se entrelaçavam noite e dia em furiosas batalhas de formigas contra centopeias, a blasfémia coexistia com a menção pura das essências e a imagem clara com o pior dos bufardos*

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

* calão argentino

sábado, 24 de junho de 2017

# 314



Uma suspeita de paraíso recuperável. Não é possível que estejamos aqui para não poder ser.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 313



quem sabe se tudo aquilo não era mais do que a nostalgia de um paraíso terreno, um ideal de pureza

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 312



Não ganhava nada em se perguntar o que fazia ali àquela hora com aquela gente, os queridos amigos desconhecidos de ontem e de amanhã, a gente que não era mais do que uma coincidência insignificante de lugar e de momento

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 311



talvez houvessem outros caminhos e o que escolheram não era o único e não era o melhor, ou que talvez houvessem outros caminhos e que o que escolheram era o melhor, mas talvez houvessem outros caminhos mais suaves de percorrer e que não foram percorridos, ou foram-no pela metade


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 310



dói-lhe o mundo

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 309



je n'ai lieu qu'en toi

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela )












domingo, 11 de junho de 2017

# 308



A vida era isso, comboios que partiam e levavam os outros, enquanto uma pessoa se deixava ficar na esquina com os pés molhados, a ouvir um piano mecânico e as gargalhadas a deixarem marcas nos vidros amarelentos dos salões onde nem sempre se tinha dinheiro para entrar.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 307


tudo lhe dói, até as aspirinas

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 306



a branda fatalidade que exigia o fechar de olhos e o sentir do corpo como uma oferta

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 305


para morrer um pouco menos dessa morte para trás que é toda a ignorância das coisas arrastadas pelo tempo, (...) queria fixá-la no seu próprio tempo (...) para não amar um fantasma

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 304



a música enfraquecia as resistências e impunha uma espécie de respiração comum, a paz de um só enorme coração a bater por todos.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

sábado, 10 de junho de 2017

# 303



- E você está bêbedo, Horacio.
- Claro que sim. Este é o grande momento, a hora lúcida.

Júlio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 302



É estranho como se pode perder a inocência de repente, sem sequer se saber que se entrou noutra vida.

Júlio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 301



A mim, tudo o que me aconteceu na vida aconteceu ontem, o mais tardar ontem à noite.


Júlio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 300



As memórias só podem mudar o passado menos interessante.


Júlio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 299



só as ilusões eram capazes de mover os seus fiéis, as ilusões e não as verdades

Júlio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 298


[o absoluto] é o instante em que uma coisa atinge a sua profundidade máxima, o seu alcance máximo, o seu sentido máximo, deixando nesse momento de ter qualquer interesse.

Júlio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 297


Não uma explicação: o verbo puro, a-mar, a-mar.

(...)

Descobrir o método anti-explicativo

(...)

Vocês se não nomeiam as coisas, nem sequer as vêem


Júlio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 296


cada vez compreendíamos menos o que é um peixe, por esse caminho de não compreender íamos aproximando-nos deles, que não se compreendem

(...)

e pensávamos nessa coisa incrível que tínhamos lido, que um peixe sozinho no aquário entristece, e que basta pôr um espelho à sua frente para que ele volte a estar contente...

(...)


Descobríamos como a vida se instala em formas privadas de terceira dimensão, que desaparecem se se põem de lado ou deixam apenas uma pequena risca rosada imóvel e vertical na água. Um golpe de barbatana e aí está monstruosamente mais uma vez, com os olhos bigodes e barbatanas e do ventre por vezes saindo e flutuando uma fita de excremento que não se solta totalmente, um empecilho que de repente os coloca entre nós, arranca-os da sua perfeição de imagens puras, compromete-os


Júlio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 295


Toco a tua boca.
Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.
Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais de perto, e então brincamos aos cíclopes, olhando-nos cada vez mais de perto. Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os cíclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio. Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragância obscura. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela. E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água.


Júlio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 294


ela teria desejado saciar uma sede imensa e ler durante um tempo infinito

Júlio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 293


esperava verdadeiramente que ele a matasse e que essa morte fosse de Fénix

Júlio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 292


a felicidade tinha que ser outra coisa, algo talvez mais triste do que essa paz e esse prazer, um ar como que de unicórnio ou de ilha, uma queda interminável na imobilidade.

Júlio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 291



tu foste sempre um espelho terrível, uma espantosa máquina de repetições

Júlio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 290



em cada mulher parecida contigo acumulava-se uma espécie de silêncio ensurdecedor, uma pausa afiada e cristalina que acabava por se desmoronar tristemente, como um guarda-chuva molhado que se fecha.

Júlio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 289



Andávamos sem nos procurarmos, mas sabendo que andávamos para nos encontrarmos.


Júlio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 288



as pessoas que marcam encontros a horas precisas são as mesmas que necessitam de papel pautado para se escreverem ou que apertam o tubo da pasta de dentes desde o fundo.

Júlio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 287



um encontro casual era a menor casualidade das nossas vidas

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo  (Rayuela)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

# 295



tornei-me medroso. Conheço essas pequenas frases que parecem não ser nada e que, uma vez admitidas, são capazes de empestar uma língua inteira. Nada é mais real do que o nada. Saem do abismo e não descansam enquanto para lá não arrastam tudo.

Samuel Beckett - Malone Está A Morrer

# 294


Pedi certos movimentos às minhas pernas, aos meus pés. Conheço-os tão bem que pude sentir o esforço que faziam para me obedecerem.

Samuel Beckett - Malone Está A Morrer

# 293



Não desisto ainda.

Samuel Beckett - Malone Está A Morrer

# 292



Um pouco de sombra, por si só, no momento, não é nada. Não se pensa mais no assunto, e continua-se, em plena claridade. Mas eu conheço a sombra, acumula-se, adensa-se, depois explode de súbito e cobre tudo.

Samuel Beckett - Malone Está A Morrer

# 291



Vivi numa espécie de coma.

Samuel Beckett - Malone Está A Morrer

# 290



Outrora não sabia para onde ia, mas sabia que havia de chegar, sabia que havia de se cumprir a longa etapa cega.
(...)
Atrai-me a névoa antiga.
(...)
sinto que talvez não a percorra até ao fim, a estrada bem traçada. Mas tenho alguma esperança.


Samuel Beckett - Malone Está A Morrer

# 289



Talvez não tenha tempo de acabar.

(...)

Passei toda a vida a refrear-me de fixar o balanço, dizendo para comigo, a vinda é cedo, ainda é cedo. Pois bem, ainda é cedo. Passei a vida toda a sonhar com o momento em que, ao fixar-me finalmente, na medida em que isso é possível antes de se ter perdido tudo, poderia fazer as contas e apurar o resultado.

Samuel Beckett - Malone Está A Morrer

# 288



Desta vez sei por onde vou. Já não é a noite de outros tempos, de outrora. (...) Até aqui nunca soube brincar. Apetecia-me, mas sabia que era impossível. Apesar de tudo, esforcei-me, muitas vezes.
(...)
Tudo começava bem (...) Mas não tardava a ficar outra vez sozinho, sem luz. Foi por isso que renunciei a brincar e para sempre fiz meus o informe e o inarticulado, as hipóteses desinteressantes, a sombra, a longa caminhada de braços estendidos para diante, o esconderijo.

Samuel Beckett - Malone Está A Morrer

# 287



Sim, finalmente vou ser natural, sofrerei mais e depois menos

Samuel Beckett - Malone Está A Morrer

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

# 286



como se a espécie tratasse de não deixar avançar demasiado o indivíduo no caminho da tolerância, da dúvida inteligente, do vaivém sentimental. A certa altura nascia o calo, a esclerose, a definição: ou branco ou preto, ou radical ou conservador, homossexual ou heterossexual, figurativo ou abstracto


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 285



em cada acto havia a admissão de uma carência, de algo que ainda não fora feito e que era possível fazer, o protesto tácito perante a evidência contínua da falta, da quebra, da escassez do presente.


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

sábado, 16 de janeiro de 2016

# 286



penso que tanto sentido há em fazer um bonequinho com miolo de pão como em escrever o romance que nunca escreverei ou em defender com a vida as ideias que redimem os povos.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 285



Quantas palavras, quantas nomenclaturas para um só desconcerto.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 284



precisava muito de me aproximar mais de mim, de deixar cair tudo aquilo que me separa do centro. Acabo sempre por aludir ao centro sem ter a menor garantia de saber do que falo, cedo à armadilha fácil da geometria com que alegadamente se organiza a nossa vida de ocidentais: Eixo, centro, razão de ser, Omphalos, nomes da nostalgia indo-europeia.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 283



Por que não aceitar o que estava a acontecer sem tentar explicá-lo (..)?


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 282



tudo me dizia que assim que recuperasse a minha independência deixaria de sentir-me livre.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 281



a irritação de estar a pensar em tudo isso sabendo que, como sempre, custava muito menos pensar do que ser.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 280



Já então me tinha dado conta de que o meu destino era procurar, divisa dos que saem durante a noite sem um propósito exacto, justificação dos assassinos de bússolas.


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

# 279



Eu aproveitava para pensar em coisas inúteis, algo que tinha começado a fazer há alguns anos (...) e que me parecia cada vez mais fecundo e necessário.

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 278



apercebi-me num instante que para te ver como eu queria era necessário começar por fechar os olhos

Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)


sábado, 26 de dezembro de 2015

# 277



a um mandrião deve dar-se, precisamente, falta de trabalho


Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 276



Dá a impressão que à volta o mundo se vai apertando.


Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 275



é preciso termos constantemente flores à sua volta (...) Para meterem medo à outra.


Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 274


- O que tem ela? (...)

- Um nenúfar! - disse Colin. - Onde é que o teria apanhado?
- Tem um nenúfar? - perguntou Nicolas, incrédulo.
- No pulmão direito - disse Colin.

Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 273



Havia qualquer coisa de etéreo nas variações de Johnny Hodges, qualquer coisa de inexplicável e autenticamente sensual. Sensualidade em estado puro, liberta do corpo. Os cantos do quarto modificavam-se e arredondavam-se sob o efeito da música. Colin e Chloé repousavam agora no centro de uma esfera.

Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 272



No sítio em que os rios se lançam no mar forma-se uma barra difícil de transpor e há grandes remoinhos de espuma onde bailam destroços.

Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 271



[Colin]

O coração ocupava todo o espaço que havia no seu peito, e só naquela altura ele se apercebia do facto.

Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 270



Chloé sentia no corpo uma força opaca, no tórax uma presença inimiga, não sabia como lutar e de vez em quando tossia para expulsar o adversário que se agarrava à sua carne mais profunda. Tinha a impressão, se respirasse fundo, de que iria entregar-se viva à raiva obscurecida do inimigo, à sua insidiosa malignidade.


Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 269



Colin corria, corria, e o ângulo agudo do horizonte comprimido entre as casas vinha ter com ele a toda a velocidade. Debaixo dos seus pés fazia noite. Uma noite de algodão negro, amorfa e inorgânica; e o céu estava sem cor, era um tecto, era mais outro ângulo agudo

(...)

não sabia o que tinha acontecido e corria, sentia medo, porque não basta estarmos sempre juntos, também é preciso sentir medo


Boris Vian - A Espuma dos Dias

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

# 268



A rua ia dar a Chloé.
- Chloé, os teus lábios são doces. Tens uma pele cor de fruto. Os teus olhos vêem as coisas como devem ser vistas, e o teu corpo aquece-me...
(...)
Vão ser precisos meses e meses para eu me fartar dos beijos que te vou dar. Vão ser precisos anos de meses para esgotar os beijos que eu quero dar-te nas mãos, nos cabelos, nos olhos, no pescoço...
(...)
- Chloé, eu queria sentir os teus seios no meu peito, as minhas mãos cruzadas sobre o teu corpo, os teus braços à volta do meu pescoço, a tua cabeça perfumada na curva do meu ombro, a tua pele palpitante, o cheiro que vem de ti...


Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 267



O que me interessa não é a felicidade de todos os homens, mas de cada um em particular.

Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 266



De pé num canto da praça, Colin esperava por Chloé. A praça era redonda, tinha uma igreja, pombos, jardim, bancos, e em frente, no macadame, carros e autocarros. O sol também estava à espera de Chloé mas podia entreter-se a fazer sombras, a germinar sementes de feijão bravo em interstícios adequados, a empurrar postigos e a envergonhar um candeeiro aceso


Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 265


Colin agarrou numa faca de prata e começou a traçar uma espiral na brancura polida do bolo. Parou subitamente e olhou para a obra, surpreendido.
- Vou tentar fazer uma coisa - disse.
Tirou do centro de mesa uma folha do azevinho e agarrou no bolo só com uma mão, fazendo-o girar rapidamente na ponta de um dedo. Com a outra, colocou um dos picos da folha de azevinho sobre a espiral.
- Ouve! - pediu.
Chick ouviu. Era Chloe no arranjo de Duke Ellington.
Chick olhou para Colin. Viu-o muito pálido.
Tirou-lhe a faca das mãos e espetou-a no bolo com um gesto firme. Fendeu-o em dois, e dentro havia um novo artigo de Partre para Chick, e um encontro com Chloé para Colin.

Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 264



Chuchou o dedo e levantou-o acima da cabeça. Baixou-o logo a seguir. Ardia como se estivesse num forno. 
- O amor anda no ar - concluiu. - Está muito calor.

Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 263



O coração de Colin inchou desmesuradamente, fez-se leve, levantou-o do chão e entrou com ele atrás.

Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 262



havia algo no interior do seu tórax a tocar qualquer coisa parecida com música militar alemã, daquela em que se ouve o bombo e mais nada.


Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 261



A espera é um prelúdio em modo menor


Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 260



quando nos apaixonamos, somos idiotas, como sabe.


Boris Vian - A Espuma dos Dias

# 259



- É horrível! - disse Collin. - Sinto-me desesperado e ao mesmo tempo pavorosamente feliz. É bastante agradável termos a um tal ponto necessidade de qualquer coisa.


Boris Vian - A Espuma dos Dias

domingo, 13 de dezembro de 2015

# 258



Não me parece que o pirilampo extraia grande vantagem do facto incontornável de ser uma das maravilhas mais fenomenais deste circo, e no entanto basta supor nele uma consciência para compreender que, sempre que a sua barriga se acende de luz, ele deve sentir uma espécie de sensação de privilégio.


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 257



sei que andei uns tempos a viver do que me era emprestado, a fazer o que os outros fazem e a ver o que os outros vêem.


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 256



inventamos o nosso incêndio, ardemos de dentro para fora


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

# 255



A nossa verdade possível tem de ser invenção


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

domingo, 29 de novembro de 2015

# 254



Juntamos duas pessoas que ainda não se tinham juntado.
Então, a dada altura, mais cedo ou mais tarde, por esta ou aquela razão, um deles é levado. E aquilo que é levado é maior do que a soma do que lá estava.
 
 
Julian Barnes - Os Níveis da Vida

# 253



Todas as histórias de amor são potenciais histórias de dor. Se não no princípio, depois. Se não para um, para o outro. Às vezes para ambos.
Então por que aspiramos continuamente a amar? Porque o amor é o ponto onde se encontram a verdade e a magia.
 
Julian Barnes - Os Níveis de Vida

# 252



Juntamos duas pessoas que ainda não se tinham juntado. Às vezes é como a primeira tentativa para prender um balão de hidrogénio a um balão de fogo: preferimos que se despenhe e arda ou que arda e se despenhe? Mas às vezes resulta, e algo novo se faz e o mundo transforma-se.


Julian Barnes - Os Níveis da Vida

# 251




Juntamos duas coisas que ainda não se tinham juntado. E o mundo transforma-se. Nesse momento as pessoas podem não dar por nada, mas não importa. De qualquer maneira, o mundo transformou-se.


Julian Barnes - Os Níveis da Vida

segunda-feira, 20 de julho de 2015

# 250



posso dizer tranquilamente que, entre a vida e os livros, fico com estes, porque me ajudam a entendê-la. A literatura permitiu-me sempre compreender a vida. Mas precisamente por isso deixa-me à margem dela.


Enrique Vila-Matas - O Mal de Montano

domingo, 19 de julho de 2015

# 249



Não gosto nada das pessoas contentinhas. Se dependesse delas, a literatura já tinha desaparecido da face da terra. No entanto, as pessoas "normais" são apreciadas em todo o lado. Todos os assassinos são, para os seus vizinhos, tal como se vê sempre na televisão, pessoas satisfeitas e normais.
(...)
Odeio esta grande parte da humanidade "normal" que dia a dia destrói o meu mundo. Odeio as pessoas que são de uma grande bondade porque ninguém lhes deu a oportunidade de saber o que é o mal e poderem então escolher livremente o bem; pareceu-me sempre que esse tipo de gente bondosa é gente de uma maldade extraordinária em potência. 

Enrique Vila-Matas - O Mal de Montano

# 248



existe uma actividade que poderíamos chamar proustiana, que consiste em recordar com sensibilidade e inteligência coisas do passado. (...) existe uma magnífica retaguarda literária na arte de contar histórias melancólicas.


Enrique Vila-Matas - O Mal de Montano

# 247



para qualquer lado que nos voltemos, chocamos logo com a incorrigível vulgaridade da humanidade, que está em legiões em todo o lado, enchendo tudo e sujando tudo, como as moscas no verão


Enrique Vila-Matas - O Mal de Montano

# 246



vivo rodeado de citações de livros e autores. Enfermo da literatura.


Enrique Vila-Matas - O Mal de Montano

# 245



Talvez literatura seja isso: inventar outra vida que bem poderia ser a nossa, inventar um duplo.

Enrique Vila-Matas - O Mal de Montano