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sábado, 19 de agosto de 2023

# 538

 

Salas, corredores, estantes, prateleiras, fichas e catálogos informatizados partem do princípio de que os assuntos em que a nossa mente se demora são entidades reais e, devido a esta suposição, determinado livro pode adquirir um tom e valor particulares. Catalogado como ficção, As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, é um romance de aventuras humorístico; como sociologia, é um estudo satírico da Inglaterra do século XVIII; como literatura infantil, trata-se de uma fábula divertida sobre anões e gigantes e cavalos que falam; como fantasia, um precursor da ficção científica; como literatura de viagens, uma viagem imaginária; como clássico, uma parte do cânone literário ocidental. As categorias são mutuamente exclusivas; a leitura não o é  - ou não o deveria ser. Quaisquer que sejam as categorias escolhidas, todas as bibliotecas tiranizam o acto da leitura e forçam o leitor - o leitor curioso, o leitor atento - a resgatar o livro da categoria a que foi condenado.


Uma História da Leitura - Alberto Manguel 

segunda-feira, 23 de maio de 2022

# 510

 

Não há boa viagem se não houver, incorporado na própria deslocação, o infinito prazer e a grande excitação que produzem os momentos de medo inerentes à própria viagem.


Enrique Vila-Matas - Kassel Não Convida À Lógica

sexta-feira, 5 de julho de 2019

# 447



Nem todas as viagens têm a ver com pesquisa ou exploração.
(...)
Além de Ulisses amaldiçoado por Poseidon e de Caim amaldiçoado por Jeová, conhecemos viajantes eternos como (...) o Holandês Voador (...). Sem dúvida que a impossibilidade de parar a descansar é uma imposição dura, mas também pode ter as suas vantagens: percorrer o mundo num espírito de descoberta, ver novas paisagens ou revisitar outras antigas, tomar contacto com costumes estrangeiros ou com culturas desconhecidas, são actividades (...) apresentadas desde há séculos como a melhor forma de educação possível.
Mas há um lado negativo neste conceito generoso de viagem eterna. (...) a viagem assume a forma de uma fuga. O Judeu Errante é afastado da sua pátria por ser vítima de perseguição, passar fome e não poder trabalhar. Tem de fugir à ameaça dos campos de concentração, dos gulags, das violações e das chacinas. Tem de fugir da chegada de exércitos, da invasão de multinacionais, da ameaça de deflorestação, do perigo de secas e inundações, do praga de ditaduras militares ou religiosas. Tem de atravessar planícies e montanhas, de se fazer ao mar em embarcações frágeis (...) Tem de tentar imaginar que na outra margem estarão pessoas mais afortunadas, que o acolherão de braços abertos, que lhe permitirão levar uma vida decente (...)
A poetisa argentina Alejandra Pizarnik, bem versada em viagens imaginárias, escreveu o seguinte:

E se a alma perguntasse "Ainda é longe?", teríamos de responder:
Do outro lado do rio, não deste, mas do que está mais além.

Neste sentido, toda a viagem, imaginária ou real, é sequencial. Nenhuma permite que o explorador regresse ao ponto de partida. Mal se faz ao mar, o porto modifica-se atrás de si: surgem novos edifícios em ruas redesenhadas e aí vão viver novas pessoas rodeadas por uma paisagem que também mudou. Mesmo na memória, a nostalgia reconfigura o mundo que ficou para trás (...) O explorador - viajante, imigrante, exilado, pária, está condenado a recordar um lugar que já não existe. Nesse sentido, toda a nossa geografia é imaginária.



Alberto Manguel - Diccionário de Lugares Imaginários


# 446


A viagem imaginária não se limita a permitir que o viajante permaneça em casa; o lugar de exploração também pode estar contido num espaço microcósmico. O seu âmbito é o universo é mais além, mas também (...) o próprio lugar onde nos encontramos: a nossa mente, o nosso corpo, o nosso quarto, a nossa casa, tudo o que parece impossibilitar a viagem porque nos contém, porque nos limita, como a nossa pele. Hamlet exclama: "Eu podia estar fechado numa casca de noz e sentir-me rei de um espaço infindo." Hamlet tem razão: o lugar onde nos encontramos é, como qualquer espaço, infinito. Uma sucessão de vidas não seria suficiente para o explorar.
(...) Xavier de Maistre tentou parodiar as grandes narrativas de viagens do século XVIII contando a exploração do seu próprio quarto na prisão de Turim (...) Ignorava que Kafka escreveria um dia "Toda a gente transporta um quarto dentro de si", mas intuiu a afirmação de Kafka e propôs-se analisá-la. A sua obra (...) explora no decurso de seis longas semanas, o espaço delimitado por quatro paredes da cela onde está encarcerado, e elogia este tipo de viagem, por não custar dinheiro.
(...)
Segundo uma lei científica, não podemos observar o local de onde fazemos uma observação: por consequência, é como se só aquilo que estamos mais convictos de conhecer - o nosso chez nous - fosse inexplorável. De Maistre demonstra que é exactamente o contrário.


Alberto Manguel - Diccionário de Lugares Imaginários




# 440


Imaginária ou não, a viagem tem de desenrolar-se na água, em terra ou no céu. De todas as características geográficas acessíveis ao escritor de viagens, talvez as ilhas sejam as mais procuradas, uma vez que reúnem os três espaços num cenário conveniente. (...) A vida numa ilha impõe ao observador uma percepção invertida do mundo. Em vez de o mar ser visto como algo rodeado por terra (...) um ilhéu vê a terra embalada pelo mar. Na geometria continental, a terra é a circunferência que enquadra o centro aquático; na de um ilhéu, ele e a terra, juntos, ocupam o centro, e são o ponto fixo de um universo em constante alternância de marés. Para os habitantes da terra, os mares e os lagos são como fendas ou buracos num vasto espaço doméstico; para o ilhéu, o mar tem algo do céu e a sua ilha tem as características de uma estrela, um ponto sensorial luminoso no grande caos primordial que o rodeia. Não é por acaso que, nos mapas, as ilhas parecem constelações. No século XV, o poeta espanhol Jorge Manrique afirmou que "As nossas vidas são os Rios que correm para o mar, que é a morte". Esta convergência inexorável não o é para o ilhéu, que encara as vidas como barcos vogando em águas mortais, até por fim ancorarem em terra firme. "Um corpo de terra rodeado de água": é assim que os ingleses definem uma ilha, sendo o "corpo", como um corpo humano, a corporização do eu, a essência de um lugar singular. Para o ilhéu, o mar que o rodeia só existe porque a sua ilha exige a sua existência.

Alberto Manguel - Diccionário de Lugares Imaginários

# 436



nem todos os lugares imaginários se consubstanciam em realidade. (...) são lugares que visitamos em pensamento mas não na realidade, embora sejam necessários para aquilo a que chamamos a condição humana. Estes lugares (...) constituem os alicerces da nossa crença na tangibilidade do mundo. A fé, religiosa ou poética, necessita de locais de residência (...) E para alcançar esses domínios, embora inexistentes, temos de viajar (...)  Muitas das viagens mais antigas são demandas do impossível

Alberto Manguel - Diccionário de Lugares Imaginários

domingo, 25 de março de 2018

# 407


naquele quarto estavam dois candidatos à morte no maior dos carnavais. Dois passarões arruinados, pelo menos quanto ao aspecto. E eu, no meio de tanto riso, descobri (sem espanto, sem assombro, custa a crer) que acabara de me libertar duma doença mais que maldita, duma cegueira ou dum apagamento por onde andara sem norte e sem dias e que numa viragem sem aviso pessoas e luz, palavras e matéria, tudo tinha voltado à realidade. Existência palpável, o mundo deixara de ser anónimo.

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

sábado, 27 de junho de 2015

# 236



embora eu sempre tenha sentido uma grande atracção por esse tipo de viagens que fazemos sem uma ideia de retorno e que nos abrem portas e que podem mudar as nossas vidas, muito maior ainda tinha sido sempre a minha atracção por esse tipo de viagens ou pequenas excursões, sem aventura nem imprevistos, que em poucas horas nos conduzem de novo ao nosso porto, todas essas viagens que outrora nos levavam até ao muro da casa familiar nos verões da infância e agora a nossa casa dos dias actuais.

Enrique Vila-Matas - Doutor Pasavento

terça-feira, 27 de agosto de 2013

# 88



(...) Claudio Magris é de opinião que essa viagem circular de um pletórico Ulisses que regressa a casa - a viagem tradicional, clássica, edipiana e conservadora de Joyce - foi substituída em meados do século XX pela viagem rectilínea: uma espécie de peregrinação, de viagem que avança sempre em frente, para um ponto impossível do infinito, como uma recta que avança a titubear no nada.
Agora, ele poderia ver-se como um viajante rectilíneo, mas não quer colocar-se muitos problemas e decide que a sua viagem pela vida é tradicional, clássica, edipiana e conservadora. Pois não está a voltar para casa de táxi? Não vai a casa dos pais sempre que regressa de uma viagem e, ainda por cima, os visita sem falta todas as quartas-feiras? Não anda a preparar uma viagem a Dublin e ao próprio centro de Ulysses para, dias depois, bonacheiramente, regressar a Barcelona a sua casa e a casa dos seus pais e contar-lhes a viagem? É quase inegável que leva uma vida na mais pura ortodoxia da viagem circular.


Enrique Vila- Matas - Dublinesca

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

# 60



Que era a vida senão uma luta e uma viagem transitória num país estranho?


Malcolm Lowry - Debaixo do Vulcão