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domingo, 20 de agosto de 2023

# 542

 

os leitores cujas identidades são negadas não têm outros lugares onde encontrar as suas histórias, a não ser na literatura que eles próprios produzem.


Uma História da Leitura - Alberto Manguel 

sábado, 17 de março de 2018

# 382


Espantoso como bruscamente o meu eu se transformou ali noutro alguém, noutro personagem menos imediato e menos concreto.
Nesta introdução à perda de identidade que um transtorno do cérebro tinha acabado de desencadear, o que me parece desde logo implacável e irreversível é a precisão com que em tão rápido espaço de tempo fui desapossado das minhas relações com o mundo e comigo próprio. Como se acabasse de dar início a um processo de despersonalização, eu tinha-me transferido para um sujeito na terceira pessoa

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

sábado, 19 de agosto de 2017

sábado, 27 de junho de 2015

# 232



E eu sou parecido com quem? Seguramente que tenho algo de equilibrista que, numa alameda do fim do mundo, se passeia pela linha do horizonte. E creio que me movo como um explorador que avança no vazio. Não sei, trabalho nas trevas e é tudo misterioso. Só sei que me fascina escrever sobre o mistério de que exista o mistério da existência do mundo, porque adoro a aventura que há em todo o texto que pomos em andamento, porque adoro o abismo, o próprio mistério, e adoro, além disso, essa linha de sombra que, ao cruzá-la, vai parar ao território do desconhecido, um espaço onde de repente tudo nos é muito estranho, sobretudo quando vemos, como se estivéssemos no estado infantil da linguagem, nos toca voltar a aprender tudo, embora com a diferença de que, em criança, nos parecia que podíamos estudar e entender tudo, enquanto que na idade da linha de sombra vemos que o bosque das nossas dúvidas nunca se tornará nítido e que, além disso, o que a partir de então iremos encontrar serão apenas sombras e treva e muitas perguntas.
Então, quando nos acontece uma coisa destas, eu creio que o melhor que podemos fazer é continuar em frente, nem que seja só para ter a impressão de sermos empurrados para a frente pela nossa própria recusa em avançar.

Enrique Vila-Matas - Doutor Pasavento

segunda-feira, 4 de maio de 2015

# 228



A mudança parecia ter-se operado sem dor, de uma só vez, e de tal forma que a própria Orlando não manifestou surpresa ao confirmá-la. Muitos foram os que, levando isto em conta, e sustentando que tal mudança de sexo é contranatura, se esforçaram por provar (1) que Orlando sempre havia sido mulher, ou (2) que Orlando é neste momento um homem. Os biólogos e os psicólogos que decidam. Pela nossa parte, limitamo-nos a afirmar um simples facto: Orlando foi homem até aos trinta anos de idade; tornou-se então mulher, e mulher continuou daí em diante.
Mas outras penas que tratem de sexo e sexualidade; nós fugimos a tão odioso assunto assim que podemos.


Virgínia Woolf - Orlando

# 227



Orlando tornara-se mulher - é inegável. Mas, sob todos os outros aspectos, Orlando continuava a ser exactamente como era. A mudança de sexo, embora modificasse o seu futuro, em nada modificou a sua identidade.



Virgínia Woolf - Orlando

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

# 200



Lembro-me de ficar surpreendido quando soube que as células do meu corpo não duravam a vida inteira e se renovavam regularmente (...) Não conhecia ao certo a frequência com que tais transformações ocorriam, mas o conhecimento da renovação celular dava azo a piadas do género: "Ela já não era a mulher por quem ele se apaixonara." Não me pareceu nada que fosse motivo para pânico: ao fim e ao cabo, os meus pais e avós deviam ter passado por uma, ou talvez duas, dessas renovações, e pareciam não ter sofrido qualquer fractura sísmica; a verdade é que continuavam a ser excessiva e inabalavelmente eles próprios. Não me lembro de pensar que o cérebro fazia parte do corpo e que, portanto, os mesmos princípios se lhe aplicavam. Poderia ter pendido um pouco mais para o pânico se tivesse descoberto que a estrutura básica e molecular do cérebro, longe de se renovar prudentemente quando e à medida que surge a necessidade, é de facto incrivelmente instável; que as gorduras e as proteínas se desagregam quase no instante em que são feitas; que cada molécula ao redor de uma sinapse é substituída de hora a hora e algumas de minuto a minuto. Que, efectivamente, o cérebro que tínhamos no ano passado terá sido reconstituído muitas vezes até agora.


Julian Barnes - Nada a Temer

sábado, 2 de agosto de 2014

# 166



Dão-nos um ar sentimental, os espelhos, e nisto reside o seu segredo. Que tortura engenhosa seria a destruição de todos os que existem no mundo! A que recorreríamos, então, para estabelecer a nossa identidade?

Truman Capote - Outras Vozes, Outros Lugares

quinta-feira, 31 de julho de 2014

# 155



Para a maior parte das pessoas, descobrir alguém é como descobrirem-se a si mesmas. Vêem-se reflectidas nos olhos dos demais.


Truman Capote - Outras Vozes, Outros Lugares

domingo, 20 de julho de 2014

# 154



Durante anos (na verdade, durante toda a vida), andei a desmontar-me e a voltar a montar-me de outra maneira. Fui fazendo isto enquanto crescia, enquanto as minhas pernas e os meus braços se alongavam e me transformava num adolescente. Não desmontava, pois, uma matéria inerte, uma natureza morta, mas sim um processo. Quando se desmonta um processo, ao montá-lo de novo, as peças mudaram de tamanho.

Juan José Millás - O Mundo

# 153



(...) eu não me via a mim nem sequer no espelho. (...) Olhava para mim no espelho e fazia caretas. "Fazer caretas" era uma maneira de procurar uma identidade.

Juan José Millás - O Mundo

sábado, 6 de julho de 2013

# 20



Apesar de tudo, a vida é agradável, tolera-se. À segunda segue-se a terça e depois a quarta. A mente constrói anéis; a identidade torna-se mais robusta; a dor é absorvida no processo de crescimento. Sempre a abrir-se e a fechar-se, zumbindo cada vez mais, a velocidade e a febre da juventude são aproveitadas para o trabalho, até o ser nada mais parecer do que o mecanismo de um relógio. Com que velocidade a corrente segue de Janeiro a Dezembro! Somos arrastados por tudo aquilo que se nos tornou tão familiar que não chega a projectar sombra. Flutuamos, flutuamos...

(...)

À segunda segue-se a terça, depois a quarta e a quinta. Cada dia espalha a mesma onda de bem-estar, repete a mesma curva de ritmo; cobre a areia fresca com um arrepio ou constrói uma pequena teia de espuma. E é assim que o ser começa a deixar crescer anéis, a identidade torna-se mais robusta. Aquilo que antes era furtivo como um pequeno grão lançado ao ar e soprado de uma lado para o outro pelas rajadas fortes da vida, passa a ser agora atirado de forma metódica numa direcção precisa, obedecendo a um objectivo - pelo menos é o que parece.


Virgínia Woolf - As Ondas