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terça-feira, 15 de agosto de 2017
# 357
E houve essa noite em Esmirna, onde obriguei o objecto amado a suportar a presença de uma cortesã. A criança fazia do amor uma ideia que se mantinha austera, porque era exclusiva: o seu desgosto foi até à náusea. Depois habituou-se. Aquelas vãs tentativas explicavam-se bastante pelo gosto da devassidão; misturava-se a isso a esperança de inventar uma intimidade nova em que o companheiro de prazer não deixaria de ser o bem-amado e o amigo: o desejo de instruír o outro, de fazer passar a sua juventude por experiências que haviam sido as da minha; e talvez, mais inconfessada, a intenção de o rebaixar pouco a pouco ao plano das delícias vulgares que não obrigam a qualquer compromisso.
Havia angústia naquela minha necessidade de ferir aquela ternura desconfiada que ameaçava embaraçar a minha vida.
Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano
# 356
Não amava menos, amava mais. Mas o peso do amor, como o de um braço ternamente pousado sobre um peito, tornava-se pouco a pouco, mais difícil de suportar.
Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano
# 355
Não havia esperado a presença de Antínoo para me sentir deus.
Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano
quinta-feira, 3 de agosto de 2017
# 354
Um ser jovem desligou-se de mim no momento em que os nossos laços teriam começado a pesar-me; outras rotinas sensuais, ou as mesmas sob outras formas, ter-se-iam estabelecido na sua sua vida; o futuro incluiria um casamento nem pior nem melhor que tantos outros, um posto na administração provincial, a gestão de um domínio rural na Bitinia; noutros casos, a inércia, a vida da corte continuada em qualquer situação subalterna, vendo as coisas pelo pior, uma dessas carreiras de favoritos descaídos que passam a ser confidentes ou alciviteiros. A prudência, se compreendo alguma coisa disso, consiste em não ignorar nada desses riscos, que são a própria vida, tendo apenas o cuidado de se esforçar por afastar os piores. Mas nem aquela criança nem eu éramos prudentes.
Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano
# 353
Ofereço aqui aos moralistas uma ocasião fácil de triunfar de mim. Os meus censores preparam-se para apontar na minha infelicidade as consequências de um desregramento, o resultado de um excesso: é-me tanto mais difícil contradizê-los quanto é certo que não vejo em que consiste o desregramento nem onde está o excesso. Esforço-me por reduzir o meu crime, se crime houve, a proporções justas: digo a mim mesmo que o suicidio não é raro e que é comum morrer aos vinte anos. A morte de Antínoo só é um problema e uma catástrofe para mim. Pode ser que o desastre tenha sido inseparável de uma alegria demasiado, de um acréscimo de experiência, de que eu não teria consentido em privar-me nem privar o meu companheiro de perigo. Os meus próprios remorsos tornaram-se pouco a pouco uma forma amarga de posse, uma maneira de me convencer de que fui até ao fim o triste senhor do seu destino. Mas não ignoro que é preciso contar com as decisões desse belo desconhecido que, apesar de tudo, continua a ser para nós cada ente que amamos. Assumindo toda a culpa, reduzo esta jovem figura às proporções de uma estátua de cera que eu teria modelado e depois esmagado entre as minhas mãos. Não tenho o direito de depreciar a singular obra-prima que foi a sua partida; devo deixar a essa criança o mérito da sua própria morte.
Evidentemente que não incrimino a preferência sensual, demasiado vulgar, que determinava, em amor, a minha escolha. Atravessaram muitas vezes a minha vida paixões semelhantes; esses frequentes amores não me haviam custado, até então, mais que um mínimo de juramentos, de mentiras e de males. A minha breve predilecção por Lúcio levara-me apenas a algumas loucuras reparáveis. Nada impedia que sucedesse o mesmo com esta suprema ternura; nada, senão precisamente a qualidade única que a distinguia das outras. O hábito ter-nos-ia conduzido a esse fim sem glória, mas também sem desastre, que a vida oferece a todos os que não recusam o seu doce embotamento pela saciedade. Teria visto a paixão transformar-se em amizade, como querem os moralistas, ou em indiferença, o que é mais frequente.
Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano
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# 352
Pouco a pouco a luz mudou. Há mais de dois anos a passagem do tempo marcava-se pelo progresso de uma juventude que se forma, se vai dourando, sobe ao seu zénite: a voz grave que se habituou a gritar ordens aos pilotos e aos chefes das caçadas; a passada mais longa do corredor; as pernas do cavaleiro dominando mais destramente a montada; o estudante que, em Claudiópolis, apreendera de cor fragmentos de Homero, apaixonava-se pela poesia voluptuosa e sábia, entusiasmava-se com certas passagens de Platão. O meu jovem pastor tornava-se um jovem príncipe. Já não era a criança zelosa que, nas paragens, saltava do cavalo para me oferecer água das fontes recolhida nas suas mãos: o doador sabia agora o imenso valor dos seus dons
Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano
# 351
Teria podido, por meio do divórcio, desembaraçar-me dessa mulher que não amava; homem privado, não teria hesitado em fazê-lo. Mas ela importunava-me muito pouco, e coisa alguma, na sua conduta, justificava um insulto público. Jovem esposa, melindrava-se com os meus afastamentos (...) Assistia agora, sem parecer aperceber-se disso, às manifestações de uma paixão que se anunciava duradoura. Como muitas mulheres pouco sensíveis ao amor, compreendia mal o poder; essa ignorância excluía ao mesmo tempo a indulgência e o ciúme. Inquietar-se-ia apenas se os seus títulos ou a sua segurança estivessem ameaçados, o que não era o caso. Não lhe restava nada daquela graça adolescente que outrora me havia brevemente interessado: aquela espanhola prematuramente envelhecida era grave e dura. Dava-me satisfação que a sua frieza a tivesse impedido de ter amante; agradava-me que ela soubesse usar com dignidade os seus véus de matrona que eram quase véus de viúva. Gostava muito que figurasse nas moedas romanas um perfil de imperatriz tendo no reverso uma inscrição, umas vezes ao Pudor, outras à Tranquilidade. Acontecia-me pensar naquele casamento fictício que, nas festas de Elêusis, se realizou entre a grande sacerdotisa e o hierofante, casamento que não é uma união, nem mesmo um contacto, mas que é um rito e, como tal, sagrado.
Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano
quarta-feira, 2 de agosto de 2017
# 350
Estações alciónicas, solstício dos meus dias...Longe de embelezar, à distância, a minha felicidade, devo lutar para lhe não turvar a imagem, a sua própria recordação é hoje demasiado forte para mim. Mais sincero que a maioria dos homens, confesso sem rodeios as causas secretas dessa felicidade: aquela calma tão propícia aos trabalhos e às disciplinas parece-me um dos mais belos efeitos do amor. E espanto-me de que estas alegrias tão precárias, tão raramente perfeitas no decorrer da vida humana, sob qualquer aspecto além de que nós os tenhamos procurado e recebido, sejam consideradas com tanta desconfiança por pretendidos sábios, que eles receiem o seu hábito e excesso em vez de temer a sua falta é perda, que passem a tiranizar os sentidos um tempo que seria mais bem empregado a ordenar ou a embelezar a alma. Naquela época punha em fortalecer a minha felicidade, apreciá-la, e também em julgá-la, a atenção que sempre dispensara aos mais pequenos pormenores dos meus actos; e o que é a própria voluptuosidade senão um momento de atenção apaixonada do corpo? Toda a felicidade é uma obra-prima: o menor erro falseia-a, a menor hesitação altera-a, a menor deselegância desfeia-a, a menor estupidez embrutece-a. A minha não é responsável em coisa alguma por aquelas das minhas imprudências que mais tarde a quebraram. Julgo ainda que teria sido possível a um homem mais hábil que eu ser feliz até à morte.
Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano
# 349
Quando me volto de novo sobre esses anos julgo reencontrar a Idade de Ouro. Tudo era fácil: outrora os esforços eram compensados por uma satisfação quase divina. A viagem era um jogo: prazer regulado, conhecido, sabiamente preparado. O trabalho incessante não era mais do que uma forma de voluptuosidade. A minha vida, onde tudo chegava tarde, o poder, a felicidade também, adquria o esplendor do meio-dia pleno, o ensoalheiramento das horas da sesta em que tudo é banhado por uma atmosfera de ouro - os objectos do quarto e o corpo estendido ao nosso lado. A paixão culminada tem a sua inocência, quase tão frágil como qualquer outra: o resto da beleza humana passava à categoria de espectàculo, deixava de ser a caça de que eu tinha sido o caçador. Aquela aventura, começada vulgarmente, enriquecia mas simplificava também a minha vida: o futuro pouco importava; deixei de interrogar os oráculos, as estrelas passaram a ser apenas admiráreis desenhos na abóboda do céu. Nunca havia notado com tanta delícia a palidez da madrugada no horizonte das ilhas, a frescura das noites consagradas às ninfas é frequentemente visitaras pelas aves de passagem, o voo pesado das codornizes ao crepúsculo. Reli os poetas: alguns pareceram-me melhores que anteriormente, a maior parte, piores. Escrevi versos menos insuficientes que de costume.
Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano
quinta-feira, 27 de julho de 2017
# 348
o sono mais perfeito está quase forçosamente ligado ao amor: repouso meditado, reflectido em dois corpos.
Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano
sexta-feira, 21 de julho de 2017
# 347
O amador de beleza acaba por encontrá-la em toda a parte.
Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano
# 346
O desejo de conhecer exactamente as riquezas que cada amor nos traz, de o ver mudar, talvez de o ver envelhecer, concilia-se mal com a multiplicidade das conquistas
Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano
# 345
A técnica do grande sedutor exige, na passagem de um objecto a outro, uma facilidade, uma indiferença, que eu não tenho relativamente a eles
Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano
terça-feira, 11 de julho de 2017
# 344
Pensei várias vezes em elaborar um sistema de conhecimento humano baseado no erótico, uma teoria do contacto, em que o mistério e a dignidade de outrem consistiria precisamente em oferecer ao Eu esse ponto de apoio de um outro mundo. A voluptuosidade seria, nessa filosofia, uma forma mais completa, mas também mais especializada, dessa aproximação ao Outro, mais uma técnica posta ao serviço do conhecimento daquilo que não somos nós. Nos encontros, mesmo os menos sensuais, é ainda no contacto que a emoção se completa ou nasce (...) As próprias relações intelectuais ou aos mais neutras ocorrem através desse sistema de sinais do corpo
(...)
Com a maior parte dos seres, os mais ligeiros, os mais superficiais desses contactos bastam ao nosso desejo, ou mesmo já o excedem. Que eles insistam, se multipliquem em volta de uma única criatura até a cativar completamente; que cada parcela de um corpo assuma para nós tantas significações perturbantes como os traços de uma fisionomia; que um único ser, em vez de nos inspirar quando muito irritação, prazer ou aborrecimento, nos obsidie como uma música ou nos atormente como um problema; que ele passe da periferia do nosso universo ao seu centro, se nos torne, enfim, mais indispensável que nós próprios, e o espantoso prodígio realiza-se, no que eu vejo mais uma invasão da carne pelo espírito do que um simples jogo da carne.
(...)
Com a maior parte dos seres, os mais ligeiros, os mais superficiais desses contactos bastam ao nosso desejo, ou mesmo já o excedem. Que eles insistam, se multipliquem em volta de uma única criatura até a cativar completamente; que cada parcela de um corpo assuma para nós tantas significações perturbantes como os traços de uma fisionomia; que um único ser, em vez de nos inspirar quando muito irritação, prazer ou aborrecimento, nos obsidie como uma música ou nos atormente como um problema; que ele passe da periferia do nosso universo ao seu centro, se nos torne, enfim, mais indispensável que nós próprios, e o espantoso prodígio realiza-se, no que eu vejo mais uma invasão da carne pelo espírito do que um simples jogo da carne.
Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano
# 343
Os cínicos e os moralistas estão de acordo quanto a colocar as voluptuosidades do amor entre os prazeres ditos grosseiros, entre o prazer de beber e o prazer de comer, declarando-os, contudo, visto que asseguram poder viver-se sem eles, menos indispensáveis que os outros. Dos moralistas espero tudo, mas espanta-me que o cínico se engane nesse ponto. Admitamos que uns e outros tenham medo dos seus demónios, quer lhes resistam, quer se lhes abandonem, e se esforcem por aviltar o seu prazer, a fim de lhe retirar o poder quase terrível, ao qual sucumbem, e ao seu estranho mistério, em que se sentem perdidos. Acreditaria nesta assimilação do amor às alegrias puramente físicas (supondo que existem) no dia em que visse um apreciador de bons petiscos soluçar de delícia diante do seu prato favorito, como um amante encostado a um ombro juvenil. De todos os nossos jogos é o único que pode perturbar a alma, o único também em que o jogador se abandona necessariamente ao delírio do corpo. Não é preciso que o bebedor abdique da sua razão, mas o amante que conserva a sua não obedece até ao fim ao seu deus. Em toda a parte a abstinência ou o excesso não aliciam senão o homem só: salvo no caso de Diógenes, cujas limitações e carácter de racional pessimista se evidenciam por si próprios, todo o procedimento sensual nos coloca em presença do Outro, nos implica nas exigências e nas servidões da escolha. Não conheço outra em que o homem se resolva por razões mais simples e inelutáveis, em que o objecto escolhido seja avaliado mais exactamente pelo seu peso bruto de delícias, em que o amador de verdades tenha mais possibilidades de julgar a criatura nua. A partir de um despojamento que se iguala ao da morte, de uma humildade que ultrapassa a da derrota e da prece, fico maravilhado ao ver renova-se sempre a complexidade das recusas, das responsabilidades, dos factores, das pobres confissões, das frágeis mentiras, dos compromissos apaixonados entre o meu prazer e o do Outro, tantos laços que é impossível quebrar e contudo tão depressa desfeitos. Este jogo misterioso que vai do amor de um corpo ao amor de uma pessoa pareceu-me suficientemente belo para lhe dedicar uma parte da minha vida. As palavras enganam, visto que esta - prazer - esconde realidades contraditórias, comporta ao mesmo tempo as noções de tepidez, doçura, intimidade de corpos, e as de violência, agonia e grito . A pequena frase de Possidónio sobre o atrito de duas parcelas de carne, que te vi copiar nos teus cadernos escolares com uma aplicação de menino ajuizado, não define o fenómeno do amor, assim como a corda que o dedo faz vibrar se não apercebe do milagre dos sons. Esta frase insulta menos a voluptuosidade que a própria carne - instrumento de músculos, de sangue e de epiderme, essa nuvem vermelha cujo relâmpago é a alma.
E confesso que a razão fica confundida perante o prodígio do amor, da estranha obsessão que faz que esta mesma carne, que tão pouco nos preocupa quando compõe o nosso próprio corpo, limitando-nos a lavá-la, a alimentá-la e, se possível, a impedi-la de sofrer, possa inspirar uma tal paixão de carícias simplesmente porque é animada por uma individualidade diferente da nossa e porque representa certos lineamentos de beleza sobre os quais, aliás, os melhores juízes não estão de acordo. Aqui, a lógica humana fica aquém, como nas revelações dos Mistérios. A tradição popular não se enganou ao ver sempre no amor uma forma de iniciação, um dos pontos em que o secreto e o sagrado se encontram. A experiência sensual compara-se ainda aos Mistérios, na medida em que a primeira aproximação dá ao não iniciado a impressão de um rito mais ou menos assustador, escandalosamente afastado das funções familiares de dormir, de beber e de comer, motivo de brincadeira, de vergonha ou de terror. Tanto como a dança das Ménades ou o delírio dos Coríbantes, o nosso amor arrasta-nos para um universo diferente, onde, noutros tempos, nos era interdito entrar e onde deixamos de nos orientar desde que o ardor se extingue ou que o prazer se desenlaça.
Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano
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