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sábado, 25 de setembro de 2021

só a literatura é verdadeiramente transcendente (# 493)

 

O mundo é uma passagem, e esta é a nossa vida, vem nos livros. Só vivemos realmente à medida que vamos lendo a nossa história e a transcendemos. Porque só a literatura é verdadeiramente transcendente, nos faz descobrir os outros e perguntarmo-nos como é possível que os signos numa tábua de argila, os signos de uma pluma ou de um lápis possam criar uma pessoa (um Quixote, um Gregor Samsa, uma Beatriz, um Jacob von Guten, um Fallstaff, uma Anna Karenina) cuja substância excede, na sua realidade, na sua longevidade personificada, a própria vida.


Enrique Vila-Matas - Marienbad Eléctrico

sábado, 24 de agosto de 2019

# 459


posso dedicar-me a pensar na possibilidade de que um dia a escrita comece a deslizar, muito subtilmente, para o Finnegans, para uma literatura mais próxima da realidade bárbara, brutal, muda, sem significado, das coisas.

Enrique Vila-Matas - Chet Baker pensa na sua arte

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

# 458


se existe o sentido da realidade, deve existir também o sentido da possibilidade


Enrique Vila-Matas - Chet Baker pensa na sua arte

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

# 454


Tranquiliza-nos a simples sequência, a ilusória sucessão de factos. No entanto, há uma grande divergência entre uma confortável narração e a realidade brutal do mundo.


Enrique Vila-Matas - Chet Baker pensa na sua arte

sábado, 13 de julho de 2019

# 449



(...)  há que reconhecer que a história não é apenas selectiva, é também discriminatória, só colhe da vida o que lhe interessa como material socialmente tido por histórico e despreza todo o resto, precisamente onde talvez poderia ser encontrada a verdadeira explicação dos factos, das coisas, da puta realidade. Em verdade vos direi, em verdade vos digo que mais vale ser romancista, ficcionista, mentiroso.


José Saramago - A Viagem do Elefante

sexta-feira, 5 de julho de 2019

# 448



Em 1923, um grupo de jovens sapadores fazia o levantamento topográfico de uma parte inacessível de África. No final de um dia de trabalho particularmente penoso, sob o sol tropical, restava marcar apenas uma colina na mesa topográfica. Os homens ansiavam por regressar à base; ocorreu a um deles que, tratando-se de uma única colina, seria fácil preenchê-la, pelos olhos da fé e alguma imaginação, na sala de desenho. A sugestão foi aprovada. O engenhoso cavalheiro cortou a fotografia de um elefante de uma revista, fixou-a ao mapa que tinham concebido e delineou a forma, criando linhas topográficas da colina que não tinham mapeado. A colina em forma de elefante ainda pode ver-se hoje em dia, no canto superior esquerdo da folha 17 de Africa (Gold Coast), da série britânica de mapas I: 62 500.
Esta vitória da imaginação (ou do senso comum) sobre o dever, sobre as restrições da verdade factual, é, evidentemente rara. O mundo a que chamamos real tem fronteiras inultrapassáveis, nas quais o princípio há muito estabelecido de que dois corpos (quanto mais duas montanhas) não podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo é rigorosamente observado.


Alberto Manguel - Duccionário de Lugares Imaginários

# 436



nem todos os lugares imaginários se consubstanciam em realidade. (...) são lugares que visitamos em pensamento mas não na realidade, embora sejam necessários para aquilo a que chamamos a condição humana. Estes lugares (...) constituem os alicerces da nossa crença na tangibilidade do mundo. A fé, religiosa ou poética, necessita de locais de residência (...) E para alcançar esses domínios, embora inexistentes, temos de viajar (...)  Muitas das viagens mais antigas são demandas do impossível

Alberto Manguel - Diccionário de Lugares Imaginários

domingo, 25 de março de 2018

# 407


naquele quarto estavam dois candidatos à morte no maior dos carnavais. Dois passarões arruinados, pelo menos quanto ao aspecto. E eu, no meio de tanto riso, descobri (sem espanto, sem assombro, custa a crer) que acabara de me libertar duma doença mais que maldita, duma cegueira ou dum apagamento por onde andara sem norte e sem dias e que numa viragem sem aviso pessoas e luz, palavras e matéria, tudo tinha voltado à realidade. Existência palpável, o mundo deixara de ser anónimo.

José Cardoso Pires - De Profundis, Valsa Lenta

sábado, 19 de agosto de 2017

# 358



Fiquemo-nos por aqilo a que Ronald chama comovedoramente a realidade e que acredita ser apenas uma.

(...)

Tu pensas que há uma realidade postulável porque tu e eu estamos aqui nesta noite (...) Tenho a sensação que isso te dá uma grande segurança ontológica: sentes-te seguro de ti mesmo, bem dentro de ti e daquilo que te rodeia. Mas se tivesses o dom da ubiquidade e pudesses assistir a essa mesma realidade a partir de mim e de Babs ao mesmo tempo, compreendes, se tu pudesses ver esta sala no mesmo momento a partir do meu lugar, com tudo o que eu fui e sou, e a partir de Babs, com tudo o que ela foi e é, talvez compreendesses que o teu egocentrismo de trazer por casa não te oferece qualquer realidade válida. Ela oferece-te apenas uma crença baseada no terror , uma necessidade de afirmar aquilo que te rodeia para não caíres dentro do buraco e acabares por sair pelo outro lado, vá-se lá saber onde.


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

domingo, 25 de junho de 2017

# 321



há uma altura em que o natural soa espantosamente a falso, que a realidade dos vinte se acotovela com a realidade dos quarenta e em cada cotovelo há uma lâmina que nos corta as mangas do casaco.

(...)

Porquê esta sede de ubiquidade, esta luta contra o tempo?


Julio Cortázar - O Jogo do Mundo (Rayuela)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

# 295



tornei-me medroso. Conheço essas pequenas frases que parecem não ser nada e que, uma vez admitidas, são capazes de empestar uma língua inteira. Nada é mais real do que o nada. Saem do abismo e não descansam enquanto para lá não arrastam tudo.

Samuel Beckett - Malone Está A Morrer

segunda-feira, 6 de abril de 2015

# 225



- Ammu, quando se está feliz num sonho, isso conta? - perguntou Eshta.
- Isso conta?
- A felicidade - conta?
Ela sabia muito bem o que o seu filho de poupa desarranjada queria dizer. 
Porque a verdade é que só conta o que conta.
A sabedoria simples e inabalável das crianças.
Quando se come peixe num sonho, isso contava? Quer isso dizer que se comeu peixe?

Arundhati Roy - O Deus das Pequenas Coisas


domingo, 2 de novembro de 2014

# 207



Quando tudo estiver decidido, será tarde de mais. O momento é sempre agora. Acaba por nunca haver depois. Tudo o que é real é uma espécie de agora.


John Updike - Procurai a Minha Face


terça-feira, 21 de outubro de 2014

# 202



A nossa recordação substitui lentamente a realidade. Como acontece com os fósseis (...) Do mesmo modo que as partículas minerais enchem a forma de um corpo que já apodreceu, uma espécie de molde de cera


John Updike - Procurai a Minha Face

sábado, 4 de outubro de 2014

# 194



A arte, jogo muito sério, como o das crianças, liberta da servil sujeição ao peso da realidade e ensina a criatividade que é sobretudo livre construção da própria pessoa.


Claudio Magris - Alfabetos

domingo, 21 de setembro de 2014

# 186



Desencanto e desilusão não negam, antes filtram como uma peneira as gelatinosas mentiras, a retórica sentimental, a pieguice do coração, com a qual de bom grado enganamos os outros e nos enganamos a nós próprios: esse é talvez, um traço comum aos livros que, desmascarando o vazio em que assenta a realidade e os ouropéis com os quais se pretende dissimulá-lo, ajudam a olhar sem medo esse vazio e também a apercebermo-nos do amor que existe não obstante essa voragem.


Claudio Magris - Alfabetos