terça-feira, 16 de julho de 2013

# 42



É altura de se falar de amor. Miss Amelia amava o primo Lymon. Era uma coisa evidente aos olhos de toda a gente. Viviam na mesma casa, juntos, e nunca se separavam. Por conseguinte, e segundo Mrs. MacPhail, uma velha metediça com o nariz coberto de verrugas e que nunca estava quieta, e algumas outras, aqueles dois viviam em pecado. Se eram parentes, tratava-se de parentesco afastado e mesmo isso não havia maneira de se provar. Ora, Miss Amelia, com mais de seis pés de altura, era uma pessoa desajeitada e o primo Lymon um anão que mal lhe chegava à cintura. Mas tanto melhor para Mrs. MacPhail e suas comadres, gente que se regozija com ligações discordantes e mais dignas de dó que doutra coisa. Assim seja. Os sem-malícia, por seu lado, pensavam que, se os dois extraíam prazer físico um do outro, era assunto que só dizia respeito aos próprios e a Deus. Mas todas as pessoas sensatas concordavam - e a sua posição era clara - que não era esse o caso. De que natureza era, então, este amor?
Em primeiro lugar, é uma experiência a dois, mas isso não quer dizer que seja a mesma coisa para cada um. Há o que ama e o que é amado, e estes dois eram diferentes como o dia da noite. Muitas vezes o amado é apenas um estímulo para todo o amor acumulado, durante muito tempo e até àquele momento, pelo amante. De algum modo, cada amante sabe que é assim. Sente no seu íntimo que o seu amor é solitário. Depois, conhece uma nova e estranha solidão, que o faz sofrer ainda mais. De modo que só lhe resta fazer uma coisa. Deve abrigar dentro de si, o melhor que puder, esse amor; deve criar um mundo só seu, intenso e único. Diga-se ainda que este amante de que se fala agora, não precisa, necessariamente, de ser jovem nem destinado ao casamento - pode ser homem, mulher, criança, uma qualquer criatura terrena.
E quanto ao ser amado, também pode ser de qualquer espécie ou natureza. O estímulo do amor pode ser provocado pelo ser mais díspar ou exótico. Um homem pode ser avô e decrépito e ainda amar uma rapariga desconhecida que viu, uma tarde, nas ruas de Cheehaw, há mais de vinte anos. O pregador pode apaixonar-se pela mulher perdida. O ser amado pode ser pérfido, ter o cabelo oleoso ou maus hábitos. Sim, e o amante pode ver isso também como qualquer outra pessoa, sem que isso afecte o seu amor. A pessoa mais insignificante pode ser objecto de um amor selvagem, extravagante e belo como os lírios venenosos do pântano. Um homem normal pode estimular um amor ao mesmo tempo violento e humilhante, como um louco pode provocar na alma de outra pessoa um idílio simples e terno. Portanto, o valor e a qualidade do amor é decidido apenas pelo próprio amante.
É por esta razão que muitos preferem amar a ser amados. Quase toda a gente quer ser o amante. E a verdade nua e crua é esta: no íntimo, o facto de ser amado é intolerável para muita gente. O amado teme e odeia o amante, e pela melhor das razões. O amante quer sempre mais intensamente ao seu amado, ainda que isso lhe cause somente dor.


Carson McCullers - A Balada do Café Triste

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